sábado, 13 de junho de 2026

Vamos passar vergonha na copa...

Breve nota, algumas considerações apenas.  


Afinal de contas, o futebol é alienação, ópio do povo e tal, como os mais críticos tendem a considerar; ou é uma válvula de escape necessária, uma catarse pra aliviar o peso existencial e dar ao cidadão um fôlego no meio das turbulências da vida? Olha, essa discussão é antiga e ainda vai dar pano pra muita manga. No Brasil o que é mais certo é que o futebol não é muito nem um nem outro. Não ultimamente. Virou mais um negócio pra fazer a gente passar nervoso. 

Olha que não podemos tirar a razão do camarada que simplesmente pára de acompanhar o futebol e vai fazer outra coisa da vida nas horas vagas. Conheci muita gente assim. É triste? É triste, mas pode ajudar a pessoa a se poupar de muito aborrecimento. 

Eu não paro de acompanhar o futebol. Adoro futebol, adoro mesmo. Passo horas assistindo no YouTube, dou replay, fico analisando as jogadas. Fico encantado com a plasticidade da coisa, com a habilidade de certos jogadores, com a engenhosidade e a inteligência envolvidas, com o estilo, etc. Também gosto de ler sobre o assunto, de conhecer as histórias, os casos inusitados, ou de ver como futebol e vida se entrelaçam de modo tão bonito; gosto de ver sobre as implicações políticas do esporte, sobre como a sociedade, principalmente aqui nesse lado latino do mundo, é movida a futebol e tem na bola tanto afeto, tanta bagagem de identidade e pertencimento, de sentido e de memória. O futebol envolve muita paixão, por time ou por seleção. 

Graças a Deus que o meu Palmeiras, nessa quadra histórica, não me faz passar por muito desgosto. Mas ver a seleção brasileira tem sido doloroso. Imagino que seja assim para a maioria das pessoas, e principalmente pras pessoas que tem um certo entendimento do esporte.

Primeiro que o Brasil não é mais o país do futebol. Nosso futebol é bonito, certamente, ainda tem seu charme, seus encantamentos, mas os europeus e os africanos, e alguns asiáticos também, evoluíram muito em bola e nos deixaram um pouco pra trás. 

Daria pra dar um jeito na seleção, afinal são jogadores que jogam nas melhores ligas do mundo, mas isso exigiria uma competência técnica e política que a CBF não tem tido condições de bancar. Fizeram péssimas escolhas quanto a técnicos para a equipe. Tite quando chegou parecia saber o que fazia, mas logo perdeu a mão e entregou o ouro em duas copas nas quais o Brasil teria boas condições de chegar aos jogos finais. Depois foi só barbaridade o que aconteceu. Ancelotti chegou gabaritado para o cargo, porém, nessa pequena sequência de doze partidas antes da copa, não conseguiu aparar as arestas que estavam colocadas, chegou a esse início de competição sem uma equipe definida, com os jogadores desentrosados, e sem um esquema de jogo que possibilite ao time equiparar-se às seleções mais bem preparadas. Ou seja, uma seleção como a nossa, que, embora tenha sido alcançada em termos de nível de excelência futebolística, poderia ainda permanecer em primeiro plano, está agora rebaixada, por assim dizer, ao nível de seleções que estão no patamar intermediário da bola. 

O que Ancelotti fez nessa primeira partida foi loucura. Montou o time sem lateral direito, porque não dá pra considerar que esses caras que entraram na ala direita tenham condições de jogar uma copa do mundo. Ancelotti ainda insistiu em Bruno Guimarães, que é um jogador que se mostrou insuficiente para manter um meio de campo de qualidade ao lado de Casemiro e Paquetá. Erra muitos passes e não tem técnica suficiente pra manter a posse de bola ou para chegar ao ataque com perigo. E o cara ainda foi lá e insistiu em Mateus Cunha, que, como bem disse o comentarista Neto, não tem condições de ser titular nem no Corinthians, que, a maioria do pessoal deve saber, é um time agora bem limitado e luta para fugir da zona de rebaixamento no Brasileirão. 

E outra, como é possível colocar esses caras pra jogar e não mexer em Endrick e Rayan, que estavam no banco e deveriam ser acionados, para, ao lado de Luiz Henrique e Vinícius Júnior, colocarem a zaga adversária pra correr?! Não, não fez isso. Deixou o time lá apático, com extrema dificuldade para estabilizar a partida e sair com um vergonhoso empate. É o fim da picada. O pessoal aí que se iluda à toa. O fato é que o Brasil dificilmente, mas muito dificilmente mesmo, passa das quartas de final. Aliás, se chegar nas quartas já tá ótimo. Com esse técnico, com essas escolhas, a seleção não engrena. Infelizmente é assim que é. Ficaremos mais quatro anos sem título de copa do mundo. É bom não criar expectativa pra frustração não ser arrasadora mais adiante. A gente continua admirando a maravilhosa história do futebol brasileiro e tenta não passar muito nervoso com o que fizeram da seleção. Vão por mim. 





terça-feira, 5 de maio de 2026

A semana do tapa na cara

 Essa foi a semana do tapa na cara. Vocês repararam? Primeiro foi o Magno Malta com a moça funcionária do hospital onde ele tá internado. Agora foi o Neymar com o filho do Robinho. Foi literalmente tapa na cara. Nos dois episódios há testemunhas. Foram tapas no rosto e foram dados com força. Uma vergonha. Esses bolsonaristas são pessoas inescrupulosas, desequilibradas, pessoas arrogantes, agressivas, com o pior tipo de impulsividade possível.

O Neymar ainda que pediu desculpas. O Magno Malte teve a pachorra de negar, isso que um outro rapaz testemunhou a agressão, e parece que também há imagem de câmeras do hospital.

Bom, de qualquer modo, isso não pode passar batido. O bêbado do Magno Malte tem que ir pro conselho de ética responder por quebra de decoro, e o Neymar precisa ser punido pelo Santos, além de pagar uma indenização pro garoto. O garoto e o pai podem até perdoar o Neymar, mas a agressão não pode passar impune. Do contrário, abre-se grave precedente. Imagina se o pessoal começa a dar tapa na cara das pessoas... Não dá, gente. Isso não pode. Pra tudo tem limite. Se ele tivesse dado um empurrão, ou se tivesse dado um chute na bunda, como o Glauber Braga fez com o fascista lá em Brasília, ainda que passava. Podia falar que não estava num dia bom e tal. Mas tapa na cara... Não, não dá.

E, vejam vocês, foi a semana do tapa na cara. Gente poderosa e covarde batendo em pessoas mais vulneráveis, bem como aconteceu no congresso nacional, com essa votação indecente no senado pra vetar o candidato do Lula ao STF, simplesmente por ser o candidato do Lula. O cara pode não ser o melhor candidato. Nem vou entrar nesse mérito. Teve gente muito pior que entrou lá... 130 anos que não negavam um ministro. Recusaram o cara por ser o candidato do Lula, agora que eles querem colocar o filho do Bolsonaro na presidência. Imagina, o Messias é advogado geral da união, concursado, aparentemente não tem nada que o desabone. O cara ficou cinco meses fazendo campanha, conversando com todo mundo, passando no gabinete de todo mundo... O cara tem família. Imagina o desgaste pra família. 

Outro tapa na cara foi o negócio da dosimetria. O congresso fazendo a maior maracutaia só pra tirar o Bolsonaro da cadeia. Se estivessem preocupados com os ditos bagrinhos, se estivessem discutindo redução de pena pras mães de família que deram o mal passo de entrar no meio da quebradeira lá. Mas não. Eles querem puxar o saco do Bolsonaro, porque esse Centrão é todo de gente bolsonarista, sem nenhum compromisso com a seriedade.

Olha... Difícil. Foi a semana do tapa na cara. Todo dia tem tapa na cara, né. A verdade é essa. Só que essa semana foi demais. O Brasil anda mal.




terça-feira, 10 de março de 2026

50 anos do álbum Alucinação

Quando Alucinação chegou às lojas em 1976, o Brasil vivia uma dessas fases barra-pesada, que acontecem bastante, é verdade. Naquele período, a barra tava pesando fazia bastante tempo. A ditadura estava ali, desde 64, firme, produzindo silêncio, medo, acomodação. Ao mesmo tempo, uma geração inteira começava a perceber que o mundo prometido nos anos 60 não tinha chegado. Entre o sonho e a ressaca, surgia um tipo de consciência nova, mais desconfiada, mais irônica, talvez mais triste. Foi nesse cenário que apareceu aquele cearense magro, bigode espesso, olhar meio melancólico, meio desafiador. Sotaque nordestino, uma voz muito particular, anasalada. Belchior era um personagem realmente atípico, desafiador.

Quanto ao disco, vejam, ele não se apresenta com rodeios. Logo na abertura, em Apenas um Rapaz Latino-Americano, Belchior faz algo que poucos compositores brasileiros tiveram coragem de fazer com tanta clareza. Ele se apresenta como personagem histórico. Não é apenas um cantor. É um sujeito situado no mundo. Um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, vindo do interior. A frase parece simples, mas carrega uma camada inteira de interpretação social. O sujeito latino-americano está longe de ser o típico herói das metrópoles europeias, ou protagonista dos romances ideais.  É alguém que chega sempre um pouco depois, um pouco à margem, tentando decifrar um mundo que já foi organizado por outros. Mas contesta, não aceita o status quo. Chega e se impõe, dono de si.


E esse ponto de partida dá o tom do disco inteiro. Alucinação não é apenas uma coleção de belas canções. É uma espécie de romance existencial condensado em música popular. Um retrato sensível de uma geração que já não acredita totalmente nas utopias, mas também não aceita se entregar ao cinismo.

O curioso é que Belchior não canta essas coisas com a frieza de um analista social. Ele canta com o corpo inteiro. Com uma emoção quase febril. O lirismo dele não é decorativo. É cortante. Há uma urgência nas palavras, uma vontade de dizer tudo antes que a noite caia outra vez.

Isso aparece com força em Velha Roupa Colorida. A canção é uma espécie de balanço crítico da contracultura. Não é exatamente uma negação daquele espírito libertário que marcou os anos 60. Belchior não faz uma crítica moralista. O que ele faz é algo mais incômodo. Ele aponta o desgaste. Mostra que certos discursos envelhecem, que certas palavras de ordem perdem a força quando entram em contato com a vida real. A velha roupa colorida não serve mais. Não porque tenha sido inútil, mas porque o tempo passou e as circunstâncias mudaram.

Essa consciência histórica atravessa o disco inteiro. Belchior parece estar o tempo todo observando sua geração com uma mistura de carinho e impaciência. Como quem diz: Ok, fomos belos, fomos ousados, mas talvez também tenhamos sido um pouco ingênuos.

Essa tensão aparece de maneira quase dolorosa em Como Nossos Pais. A música ficou eternizada na voz de Elis Regina, mas no disco ela surge com a interpretação do próprio Belchior, mais crua, mais áspera. E a letra é devastadora. Porque desmonta uma das ilusões mais caras à juventude de qualquer época: a ideia de que somos radicalmente diferentes da geração anterior.

Belchior percebe algo que dói admitir. Muitas vezes repetimos exatamente aquilo que juramos combater. Mudam-se os slogans e as roupas, mudam-se as músicas. Mas certos padrões persistem. A frase central da canção continua ecoando como um diagnóstico incômodo da história: viver é melhor que sonhar, mas ainda não sabemos exatamente como viver. Esse tipo de percepção confere ao disco uma densidade rara na música popular brasileira. Belchior não escreve apenas letras bonitas. Ele pensa o tempo em que vive. Faz filosofia com três acordes e um punhado de versos.

Talvez o momento em que essa vocação reflexiva aparece de maneira mais explícita seja justamente na faixa-título, Alucinação. A palavra sugere fuga, delírio, escapismo. Mas a música faz exatamente o contrário. Ou seja, a letra é exatamente feita para a crítica. Belchior inverte a alucinação. A alucinação de Belchior não é psicodélica. É histórica. É existencial.

Ele canta contra o excesso de teorias, contra o vício intelectual de transformar a vida em abstração. Prefere algo mais concreto, mais arriscado, mais humano. Viver a experiência direta do mundo. Amar, sofrer, caminhar, errar. A canção parece afirmar que a verdadeira compreensão da realidade não nasce apenas nos livros ou nos discursos ideológicos. Nasce também no corpo, na rua, na experiência cotidiana, na singularidade material. 

Há algo profundamente libertador nessa postura. Belchior não rejeita o pensamento, mas se recusa a aceitar um pensamento que paralisa a vida. A alucinação que Belchior propõe é justamente essa abertura radical à experiência do mundo. Uma espécie de aposta existencial na intensidade da vida. O resultado é uma canção que vibra de inquietação. A voz de Belchior oscila entre a confissão e o manifesto. E o ouvinte percebe que está diante de algo raro: um artista tentando compreender seu tempo enquanto ainda está dentro dele.

Esse mesmo impulso vital explode em Sujeito de Sorte. Poucos versos da música brasileira ganharam tanta força popular quanto aquele em que o cantor afirma que no ano passado morreu, mas neste ano não morre mais. A frase passou emblemática para a história, virou desabafo coletivo. E não é difícil entender o porquê. É um verso que contém uma forma muito particular de esperança. Não é o otimismo paspalho das propagandas. É algo duro, teimoso. A esperança de quem já viu o pior, e mesmo assim insiste em continuar.

Essa teimosia, arrisco dizer, é o verdadeiro coração do disco. Alucinação é um álbum que olha para a crise sem disfarces. Reconhece o desencanto generalizado, a frustração das promessas históricas, o desgaste das utopias, a frieza de um mundo sem coração. Só que ao mesmo tempo se recusa a aceitar a apatia como destino. Belchior canta como alguém que ainda acredita na potência da vida, mesmo quando tudo parece conspirar contra essa crença. Há uma beleza estranha nisso. Uma beleza áspera, que nasce justamente da contradição lucidez x esperança.

Toda essa sofisticação existencial faz com que o disco continue tão poderoso cinquenta anos depois. Porque ele não pertence apenas ao seu tempo. Ele fala de algo que continua acontecendo. Fala da experiência de se viver em um mundo que frequentemente parece menor do que os nossos sonhos.

Aos mais atentos, aos mais sensíveis, escutar Alucinação hoje provoca uma espécie de reconhecimento íntimo. Como se aquelas canções ainda estivessem tentando decifrar as mesmas angústias que atravessam o presente. A sensação de deslocamento. A busca por sentido. O desejo de não se tornar apenas mais uma peça da engrenagem social, mas de se insurgir com uma subjetividade aguçada pela crítica.

Belchior, em sua inteligência e sentido de  engajamento, compreendeu que a música popular podia e devia ser um espaço de pensamento. Um lugar onde poesia, filosofia e vida cotidiana se encontram. E fez isso sem pedantismo, sem discursos grandiosos, apenas com palavras afiadas e uma sensibilidade extraordinária para perceber o drama humano escondido nas coisas mais simples.

Cinquenta anos depois, aquele rapaz latino-americano continua convocando novos interlocutores. Continua perguntando quem somos, de onde viemos, para onde estamos indo. E enquanto essas perguntas continuarem abertas, enquanto ainda houver gente tentando compreender o mundo e encontrar um lugar dentro dele, as canções de Alucinação seguirão respirando. Seguirão como potente pensamento acerca da matéria viva da experiência humana.

Viva a memória de Belchior!! Sua obra é um grande legado do nosso povo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

É polarização e não tem escapatória

 Sobre a incontornável polarização política do momento.  Pequena nota. Um breve comentário.


A gente era feliz e não sabia. Sim. A gente era feliz. Depois apareceu o gado de direita. A gente tinha polarização política? Tinha. Mas não era essa loucura. A gente convivia com fascistas na sociedade? Sim, mas eram poucos, entocados, ficavam na deles. Agora tudo mudou, não adianta reclamar, falar que a polarização política tem que acabar e tal. Quem estabeleceu a atual polarização política foi o bolsonarismo. 

30 a 40% da população vota em Bolsonaro ou em quem o Bolsonaro mandar votar. Esse pessoal saiu dos bueiros. Não tem como fugir da polarização. A verdade é que não só a esquerda vota no Lula contra Bolsonaro. Tem gente que não tá nem aí com a política e vota no Lula contra Bolsonaro. Tem gente liberal, de centro, centro-direita, que vota em Lula contra Bolsonaro. Qualquer pessoa honesta, com alguma lucidez, vota em Lula contra Bolsonaro.

Uma hora vai voltar a direita pro governo, infelizmente. Mas o que podemos fazer por enquanto é justamente votar em qualquer um para que o Bolsonaro ou alguém de seu clã não ocupe a presidência. E o nome com mais força no momento é o Lula, a despeito de suas limitações políticas e defeitos. Eu não sou partidário de passar pano pro Lula. A crítica tem que ser feita. Mas, como eu dizia no início, o bolsonarismo tem muito mais rejeição que o lulismo. E os motivos são claros e transparentes.

Na verdade, no mundo inteiro a disputa do momento é essa: Extrema direita x Social-democracia. O movimento trumpista de um lado, com Steve Bannon, e o social-liberalismo de outro. Não é exatamente esquerda. É um centro político, com composições heterogêneas, frentes-amplas, variando conforme as particularidades locais. Esquerda, centro democrático, verdes, etc. Tudo pra evitar que a extrema direita, virulenta e perigosa, alcance postos de poder. 

A gente pode ter restrições ao Lula e à política do PT, mas é indiscutível que Lula e seu partido lograram por suas próprias trajetórias conquistar a maior parte do eleitorado. Vejam as pesquisas de ontem. Lula tem por volta de 40% das intenções de voto em primeiro turno. Como que a gente vai falar que um cara desse não tem condições de vencer a eleição? O Lula deve ganhar a eleição no fim do ano. Tá claro isso. 

A direita talvez tivesse chance de vitória caso o bolsonarismo recuasse de sua candidatura. Mas isso não deve acontecer, porque a extrema direita prefere marcar posição. E vai perder, porque a parte civilizada da sociedade sabe que a extrema direita governa com ódio, defendendo os interesses do capital e golpeando duramente a população. 

Cabe à esquerda, nessa conjuntura, criar mecanismos de conscientização da classe trabalhadora, pra retomar espaço político e fazer virar a hegemonia. Porque, de fato, a social democracia, a frente ampla, algo que a gente pode classificar como esquerda neoliberal, esquerda pelega e tal, pode segurar a extrema direita nas instituições da representação política, mas também não vai tocar nenhuma política claramente trabalhista, progressista, de desenvolvimento e protagonismo popular. 

O máximo que o espectro esquerdo do neoliberalismo vai fazer é implementar pequenos programas sociais pra estancar a sangria do capitalismo tardio. Esse pessoal é especialista em colocar panos quentes nas coisas. Estão aí pra administrar a crise social aguda com altas doses de concessão ideológica, com rebaixamento programático e com identitarismo pra maquiar a falta de um posicionamento operário. A gente vota nesse pessoal não por gostar. A gente vota porque do outro lado só tem malucos, psicopatas, sociopatas, fascistas e canalhas da pior laia.




segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A economia da guerra


Há momentos em que o capitalismo, cansado de prometer futuro, resolve investir no passado. Não qualquer passado, mas aquele que nunca sai de moda, a guerra. Quando as taxas de lucro se comportam como alunos desmotivados e os mercados já não se impressionam com mais um aplicativo de entrega, alguém, em algum gabinete bem climatizado, lembra que a destruição continua sendo uma forma bastante eficiente de gerar demanda.

A guerra da Ucrânia é um caso assim. Oficialmente, trata-se de defesa da democracia, da soberania nacional, do direito internacional e de outras expressões que costumam ganhar força proporcional ao número de contratos militares assinados. Na prática, opera como um grande estímulo econômico em tempos de crise, uma espécie de política anticíclica armada até os dentes, onde o estado volta a gastar pesado, dessa vez não para construir escolas ou hospitais, infraestrutura produtiva e tal, mas para garantir que fábricas de armamentos trabalhem em três turnos e sem risco de encalhe de estoque.

Nada resolve mais rápido o problema da superprodução do que a certeza de que tudo será destruído em poucos meses. Um míssil lançado hoje já é a encomenda de outro amanhã. Um tanque queimado é um balanço saneado. A lógica é simples, quase elegante, se não fosse trágica. O capitalismo sempre teve dificuldade em lidar com seus próprios excessos e descobriu cedo que a guerra funciona como uma faxina radical, varre cidades, estradas, usinas, gente, e depois chama isso de oportunidade de reconstrução. Vide o terrível projeto lá do genro do laranjoso, o Jared Kushner, que quer fomentar o turismo de luxo na Palestina reconstruída, após esse último ciclo do genocídio perpetrado por Israel.

Há também o entusiasmo tecnológico por detrás. A Ucrânia, por exemplo, virou um laboratório a céu aberto, onde drones são testados como se fossem novos modelos de celular, só que com capacidade de matar. Inteligência artificial decide alvos, algoritmos calculam rotas de destruição, sistemas de vigilância cruzam dados em tempo real. O discurso é de inovação, eficiência e modernização, palavras que soam futuristas até lembrarmos que o objetivo final continua sendo o mesmo de sempre, eliminar o inimigo antes que ele te elimine 

Esse avanço tecnológico não é um efeito colateral, é parte central do processo. A guerra acelera aquilo que em tempos de paz levaria décadas, porque não há comitê de ética que resista a uma emergência militar, certo? Depois, como bônus, parte dessas tecnologias escorre para o uso civil, embaladas como progresso, enquanto a origem violenta é convenientemente esquecida. O GPS, a internet, os satélites, todos nasceram assim, primeiro como ferramentas de controle e destruição, depois como utilidades cotidianas. O problema é que o preço desse progresso dificilmente entra na planilha.

Enquanto isso, os Estados Unidos e a Europa redescobrem virtudes industriais que haviam terceirizado para o mundo. Fala-se em reindustrialização, autonomia estratégica, segurança energética. O detalhe é que essa reindustrialização vem com uniforme camuflado e orçamento garantido pelo tesouro. Trata-se menos de um novo projeto de desenvolvimento e mais de uma reorganização seletiva da produção, altamente dependente do estado e concentrada em poucos setores e empresas. O trabalhador continua precarizado, o salário continua comprimido, mas agora com a satisfação simbólica de saber que contribui para a defesa do mundo livre.

A guerra também cumpre um papel pedagógico interno, altamente ideológico. Ela ensina a população a aceitar sacrifícios, cortes sociais, inflação e endividamento como se fossem provas de maturidade cívica. Questionar gastos militares passa a ser quase uma heresia. A crítica vira suspeita. A divergência, traição. Em tempos de guerra, reais ou prolongados artificialmente, o consenso se constrói com menos debate e mais medo. Nada como um inimigo externo para silenciar conflitos internos. A extrema direita é especialista nisso.

Mas, fiquemos no ponto de vista econômico: o estímulo é real, só que é frágil. Ele não resolve a crise estrutural do capitalismo, apenas a adia e a desloca. A dívida pública cresce, os preços da energia e dos alimentos sobem, as cadeias globais ficam mais instáveis. O crescimento gerado é desigual e concentrado, enquanto a conta, socializada. É um estímulo que se alimenta da própria destruição e que, por isso mesmo, precisa de conflitos contínuos para se manter.

Profundamente irônico isso tudo. O sistema que se apresenta como racional, eficiente e moderno, só consegue se revitalizar recorrendo à forma mais primitiva de organização social, a guerra. Em vez de planejar a produção para atender necessidades humanas, planeja-se a destruição para manter a máquina girando. Em vez de expandir direitos, expande-se o raio de alcance dos mísseis. Em vez de imaginar futuros, reciclam-se tragédias.

A guerra da Ucrânia, nesse sentido, não é uma anomalia, é um sintoma. Ela revela os limites de um capitalismo que  não consegue se reproduzir sem recorrer à violência organizada em larga escala. O estímulo econômico que da guerra decorre é real, mensurável, celebrado em relatórios e gráficos, mas carrega consigo uma instabilidade permanente. É crescimento sob ameaça, inovação sob ruínas, desenvolvimento que anda de mãos dadas com a possibilidade de colapso e o risco nuclear. Desenvolvimento a preço de dor e morte, sofrimento humano, na maioria das vezes a preço de crime de lesa-humanidade.

Talvez por isso o discurso oficial insista tanto na normalidade. Fala-se em defesa, em segurança, em estabilidade, como se fosse possível estabilizar um sistema que precisa periodicamente destruir para continuar existindo. Eles precisam estabilizar o furor das massas, isso sim. No fundo, a guerra funciona como um lembrete de que, quando o capitalismo entra em crise profunda, ele não inventa um novo mundo, apenas reaprende a fazer o mais do mesmo, guerra, com tecnologia melhor, marketing mais sofisticado e a mesma velha promessa de que, depois da destruição, tudo ficará melhor.

Fica a dúvida, não sobre se a guerra estimula a economia, isso ela faz, mas sobre que tipo de economia precisa da guerra para respirar. E, sobretudo, sobre quanto tempo ainda se consegue chamar isso de desenvolvimento sem que a palavra perca de vez o sentido. 

Outra coisa: a bola da vez pode ser a Venezuela. Aqui do lado...




sábado, 13 de dezembro de 2025

Uma continuação para o sermão das bem-aventuranças


Bem-aventurados os que não se acostumaram à injustiça,

porque sua inquietação é sinal de vida.


Bem-aventurados os que duvidam do mundo como ele é,

porque não confundiram ordem com destino.


Bem-aventurados os que erram tentando amar,

porque não fizeram da prudência um álibi para a omissão.


Bem-aventurados os que carregam perguntas sem resposta,

porque recusaram a paz duvidosa das certezas fáceis.


Bem-aventurados os que perdem tempo com os pequenos,

porque compreenderam onde o Reino começa.


Bem-aventurados os que repartem quando falta,

porque já romperam com a lógica do medo.


Bem-aventurados os que se indignam sem se tornarem cínicos,

porque guardaram o espanto diante da dor alheia.


Bem-aventurados os que caminham devagar em um mundo apressado,

porque ouviram vozes que o ruído não deixa passar.


Bem-aventurados os que caem e se levantam sem serem vistos,

porque aprenderam que a fidelidade não precisa de testemunhas.


Bem-aventurados os que são esquecidos pela história,

porque sua memória repousa onde não há esquecimento.


Bem-aventurados os que não venceram,

porque ainda sabem distinguir vitória de justiça.


Bem-aventurados os que seguem sem garantias,

porque escolheram o amor como caminho 

e a justiça como horizonte.









quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Aos trancos e barrancos parece que vai, mas não vai. O desenvolvimento exige resolução

Às vezes parece que o Brasil anda em círculos, como se desse sempre a impressão de que está prestes a resolver seus velhos problemas, mas no fim das contas só muda a decoração da sala enquanto o alicerce continua rachado. Houve um tempo, recentemente , ali nos primeiros mandatos de Lula, em que a vida de muita gente melhorou um pouco. Não foi milagre, foi vento internacional soprando a favor e um governo tentando aproveitar o impulso pra puxar quem estava mais para baixo. A demanda chinesa por commodities dava ao país uma força artificial que parecia enorme, como se tivéssemos descoberto um motor novo quando, na verdade, só estávamos sendo empurrados por um tranco alheio. A pobreza caiu, a desigualdade encolheu um pouco, o salário mínimo cresceu, e muita gente respirou melhor, comprando carro, financiando imóvel e tal. Chegou luz no nordeste . Realmente muita coisa aconteceu. Mas esse respiro tinha prazo de validade, porque nunca mexeu no coração da desigualdade brasileira. A verdade é essa.

Quando a maré virou, porque ela sempre vira, a aparente dança harmoniosa entre capital e governo se transformou num tropeço coletivo. A burguesia brasileira, que aceita concessões sociais só enquanto isso não ameaça seu poder, puxou o tapete sem cerimônia. Depois da "marolinha" enfeiar a situação econômica, da Dilma perder a mão em Brasília e de 2013 ter sido orquestrado pra bagunçar o coreto, veio o golpe de 2016, vieram os anos de brutalidade política e social, com Ponte Para o Futuro, reforma trabalhista, da previdência, Temer com 2% de popularidade despejando maldades no brasileiro; e o país descobriu que seus pequenos avanços estavam apoiados num piso escorregadio. 

A ascensão de Bolsonaro não surgiu do nada, foi o produto direto de uma crise de hegemonia, daquela fadiga estrutural de um pacto que nunca foi capaz de conciliar verdadeiramente as classes, apenas adiar conflitos. A violência institucional, o descaso com a vida e a volta da fome mostraram que, na prática, nada fundamental tinha mudado.

Quando Lula voltou e o Brasil saiu de novo do mapa da fome, houve um alívio geral, quase como abrir a janela depois de anos trancado num quarto abafado. Pouco se falou em filas do osso depois disso. A inflação foi controlada, as famílias voltaram a se alimentar melhor. Só que a paisagem lá fora continua praticamente a mesma. O agronegócio continua mandando na fronteira do país e no congresso, a economia segue dependente da exportação de coisas que tiramos da terra, a indústria anda minguada, e a desigualdade permanece de pé, firme, como uma velha árvore que se recusa a tombar. 

A estrutura que produz a miséria continua intacta. A melhora da vida de milhões é real, mas se apoia num terreno movediço, sempre sujeito ao humor do mercado internacional e à disposição da elite local de tolerar algum bem-estar social desde que isso não abale sua fortaleza, suas notas promissórias, seus títulos da dívida.

O Brasil moderno, esse que o agronegócio gosta de celebrar com tratores gigantes e recordes de safra, convive com um Brasil que vive espremido entre bicos, aluguel atrasado, transporte lotado e muita economia na hora de fazer o supermercado. É como se duas épocas convivessem no mesmo território, ligadas por estradas que levam riqueza num sentido e precariedade no outro. A reprimarização da economia deu ao país um tipo de modernidade que brilha por fora e apodrece por dentro. A cada nova fronteira agrícola aberta, vem também a destruição ambiental, a expulsão de comunidades, a violência silenciosa que mantém a engrenagem funcionando. O capital global sabe exatamente o que quer do Brasil, e não é que nos tornemos uma potência industrial, e sim que continuemos entregando produtos baratos e recursos naturais abundantes.

Ao falar tudo isso, vejam, não se trata de pessimismo, mas de honestidade histórica. A democracia trouxe conquistas importantes, mas também conviveu com limites enormes. A nova república brasileira deixa muito a desejar. A redução da indigência, o aumento do acesso à escola, a ampliação de programas sociais, tudo isso é valioso. Mas são vitórias que sempre vieram acorrentadas às regras do jogo do capital. Uma economia dependente e financeirizada não entrega soberania, entrega migalhas condicionadas à estabilidade da rentabilidade. Quando o preço do minério sobe, o país respira, quando cai, o país sufoca um pouco. Ninguém constrói um futuro assim. Não tem continuidade de política de reindustrialização. O projeto Brasil fazendão é que tá vigorando. Alguma pujança em serviços, com empregos bem ruins, superexploração bombando. Nada que inspire otimismo. 

Ou seja, o drama brasileiro é que as conquistas são reais, mas frágeis, muito frágeis, e a regressão é sempre rápida. É como construir uma casa sobre a areia da praia. A cada nova maré, um pedaço afunda. Enquanto a estrutura produtiva não mudar, enquanto a terra continuar concentrada nas mesmas mãos, enquanto o estado seguir de joelhos diante do capital financeiro e do agronegócio, seguiremos repetindo a mesma história, apenas com personagens diferentes.

O caminho que poderia quebrar esse ciclo não é milagre, é luta. Luta organizada, consciente, com horizonte claro. É a classe trabalhadora deixando de ser objeto da política e se tornando sujeito dela. Sem isso, o país continuará vivendo de pequenas ascensões e grandes quedas, sempre preso a essa contradição que já virou marca registrada. O Brasil parece uma anomalia, mas na verdade é o retrato fiel de um capitalismo dependente que nunca foi capaz de se libertar de suas próprias amarras. E enquanto não enfrentarmos isso de frente, politicamente, ideologicamente, organizando a classe trabalhadora e os partidos populares, estaremos sempre, de novo, no mesmo lugar. A questão, mais do que nunca, é criar e estabelecer uma gama de dispositivos políticos e organizativos da classe trabalhadora para fazer frente aos desafios de desenvolvimento nacional e libertação integral. 

Não dá pra depender do PT e dos partidos acomodados ao regime político colocado, definitivamente. É preciso apontar para rupturas, ganhos qualitativos, organização operária e revolucionária para fazer frente ao que está colocado pelas conjunturas e pela lógica do capital em escala internacional. Em qualquer perspectiva, o que se exige é luta revolucionária, horizontes disruptivos para que se vislumbre progresso e bem estar do povo. Aí vão dizer que não há correlação de forças favorável... Pois é, mas correlação de forças se conquista, se forja. Esperar cair do céu não é a alternativa, enquanto se entabula uma série de acordos com elementos do centrão para compor governos de frente ampla fadados a serem permanentemente acossados pelos abutres do mercado. 

A esquerda brasileira precisa reencontrar o horizonte estratégico da revolução. O que aconteceu hoje na câmara, com um mandato popular e socialista como o de Glauber sendo entregue a seis meses de suspensão para que não fosse cassado, evidencia que os limites da institucionalidade burguesa não devem e não podem ser os limites da política socialista. Isso parece tão evidente, mas fomos tragados por uma onda liberal e identitária, obscura, fatalista. Isso precisa ser superado com urgência.