Breve comentário a respeito do 1° turno de 26
O brasileiro não desiste nunca, né. Tem esse ditado. Mas o brasileiro devia começar a desistir de ser ingênuo, desistir do pensamento mágico, desistir de encarar o mundo como um playground de seu desejo infantil. O brasileiro esquerdista principalmente. Já tô vendo aqui gente dizendo que o Lula vai virar a eleição. Muita gente em negação ainda. Olha, vamos por partes. Acompanhem aí o raciocínio.
O eleitor do Renan vota na direita, né, o eleitor do Caiado vota na direita. O eleitor do Cury também. Inclusive o Cury já acenou apoio a Flávio Bolsonaro. Isso aqui já era. Vocês percebem? O povo escolheu fazer outra experiência com a extrema direita. Eles estão alucinados? Estão. Eles não sabem o que estão fazendo? Sim, não sabem onde estão metendo o país. Alguns sabem, né. Tem gente que quer mais é que se foda...
Mas, enfim, é a escolha que o brasileiro médio fez. Não adianta a gente se iludir. Só um milagre pro Lula ganhar. É coisa de milagre mesmo, coisa surreal. Aqui na realidade não tem isso.
O pessoal que votou no Flávio Bolsonaro sabe que ele é bandido, sabe que é picareta, sabe que o cara quer dar o Brasil de bandeja pros EUA. Tudo isso já foi explicitado, já foi jogado no ventilador. Se aparecer aí que o Flávio bate na mãe, o pessoal vota nele do mesmo jeito...
Eu disse que se o Flávio perder, eu vou a pé de São Paulo até Aparecida. Vou mesmo. Mas eu devia ter feito promessa de ir e voltar a pé no mínimo três vezes. Porque esse povo tá completamente xarope da cabeça. Só um milagre extraordinário pra fazer bolsonarista virar gente normal.
Ontem tava conversando com os amigos e colocando isso. O caldo cultural (ou anti-cultural, pra ser mais específico e justo com as palavras) é favorável à extrema direita. Existe um aparato imenso, uma maquinaria poderosa e bem azeitada pra fazer girar a situação no rumo de uma sociedade de poucas proteções sociais. O capitalismo tardio precisa operar assim, e, pra isso, opera também pra aniquilar consciências, aniquilar subjetividades. E o sistema às vezes faz isso com bastante assertividade e êxito. É o caso dessa nossa quadra histórica, dessa nossa fatídica conjuntura.
Existe, é claro, uma extensa lista de problemas da esquerda, de crise de direção, crise ideológica, defasagem teórica e tal. Mas isso é outro departamento, assim como outras questões que estão sendo levantadas, mas que creio serem menos determinantes no momento. A questão central no meu entendimento é que o espírito desse tempo é de uma lavagem cerebral impressionantemente bem realizada pelo capital em crise. Não existe no neoliberalismo, e no marcos da natureza, a possibilidade de inserir todo mundo no consumo. Muita gente vai passar ao largo, e semi-conscientemente o cidadão médio passa a corroborar com esse estado de desproteção, muitas vezes como fascismo comum, como uma personalidade que enraíza preconceitos e assume divisões sociais, julgando quem são seus pares, os que merecem viver, e os que serão tidos como descartáveis. Isso pode ser muito sutil.
O caso é que toda essa engrenagem ideológica, espelho das crises do capitalismo, faz crescer na sociedade esse fenômeno político assustador da extrema direita. E isso precisa ser dito. As pessoas precisam entender isso, ao invés de ficarem presas a ilusões eleitorais.
Ontem tinha meio mundo de gente tirando fotinho do recibo eleitoral e postando na internet, achando muito lindo votar na eleição, achando que aquilo ali ajuda a resolver o mundo. A única coisa que ajuda a resolver o mundo é criar consciência de luta.
E aí reside a crítica mais urgente à esquerda. Sei que é difícil, mas se a esquerda tivesse se empenhado mais em criar consciência e menos em entabular conchavos políticos, talvez a nossa situação não fosse tão devastadora.
Agora Flávio Bolsonaro, esse verme maldito, esse vende-pátria, esse canalha, será presidente da república. Serão mais quatro anos de desaforos ao cidadão brasileiro, igualzinho como foi com o pai dele. Que Deus nos ajude.
