quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Entre vivos e mortos

Da série Crônicas da Vida Operária 



                                    ☆


Tem pessoas que a gente vê e pensa que vai viver um tempão, que tem no mínimo mais uns 20 ou 30 anos pela frente. Daí a dois, três anos a gente fica sabendo do velório, vem alguém e conta que a pessoa passou dessa pra melhor. Gozado isso. "Gozado" era como a turma da Vila Operária costumava se referir a fatos curiosos ou engraçados. E na Vila Operária muita gente morria também. A morte era um fato corriqueiro na Vila Operária. Morria gente de tiro, de facada, em brigas conjugais, entreveros familiares, desentendimentos de bêbados nos bares, etc. Morria também muita gente do coração, de diabetes, de avc. Morria velho, novo, criança. Morria-se de acidente nas fábricas às vezes. Era meio difícil, mas acontecia. 

Tinha gente na Vila Operária que até gostava dos ritos funerários. Muitas famílias velavam seus defuntos em casa mesmo. Passavam a madrugada adentro entre cafés e lanchinhos. As pessoas cochichando pelos cantos no começo do velório, e aquele vozerio depois de todos se ambientarem. Tinha gente que aí esquecia se tratar de velório. Iam zanzar no quintal, olhar a lua, falar do campeonato de futebol, das notícias da semana na política, das novelas. As crianças correndo de um lado pro outro, sujando as roupinhas de terra e levando bronca dos pais. Aí de manhã partia o cortejo em torno do féretro, sombrinhas pra cobrir a cabeça do sol. Passava o caixão e os populares tiravam o chapéu pelo caminho, fazendo o sinal da cruz. 

O cemitério da Vila Operária era simplezinho. Mixuruca, mas digno. Tinha bonitas copas de árvores, com passarinhos, gatos nos muros laterais. Um lugar simpático. De um lado o cemitério antigo, com pequenas edificações, cruzes e imagens de santo. De outro as covas recentes, só o bolo de terra pra indicar o sepultamento. 

Eu conhecia como a palma da mão o cemitério da Vila Operária, e mais adiante vou contar o porquê. Uma vez entrei correndo lá de noite, fugindo de um quebra pau na frente do sindicato. Baixou a polícia atrás da peãozada. Os homens já tinham me marcado de um piquete naquela semana. Vieram ao meu encalço. Desci a rua desabalado, vim no impulso da corrida e pulei o muro. Caí na parte das covas recentes. No apuro devo ter passado por cima de uma meia dúzia de companheiros recém finados. Segui na correria e só fui parar quando tive certeza que os homens não vinham atrás. 

Mas, eu dizia, a morte era tema constante na Vila Operária. Pouca gente morria velhinha. Toda semana partia alguém pro mundo do além. E a gente de certa forma se acostumou com aquilo. Teve uma época em que eu tava queimado com os patrões nas empresas. Meu nome foi parar numa lista negra de operários subversivos. Aí fui me virar com bicos. O Charles, meu camarada das antigas, dono de uma funerária, me chamou pra dar uns expedientes por lá. Me chamou e disse: "Olha, o serviço é moleza. Faz assim, faz assado. Tem muita história em torno disso mas aqui você passa bem. Vai por mim"

Eu peguei a manha do negócio e por alguns meses ganhei o pão com a carne morta, como dizia o Charles pra fazer gracejos entre os amigos. E foi o próprio, camarada Charles, que me arrumou um emprego no cemitério. Lá eu teria carteira assinada, alguns direitos e tal, coisa que eu não tinha na funerária. Foi aí que passei esse tempo atuando no cemitério, até a poeira baixar e eu poder voltar pro chão de fábrica. 

Outros companheiros precisaram fazer o mesmo: desbaratinar por um tempo em outros afazeres. Deixar um pouco as fábricas enquanto o bicho pegava. E ouvi histórias interessantíssimas. Teve gente que foi varrer rua, gente que foi animar festas infantis no bairro dos ricaços...Gente com menos escrúpulos, que tinha rodado meio por acaso, sem o envolvimento político nosso, que foi fazer trambiques, aplicar pequenos golpes como o do bilhete premiado na loteria, essas sacanagens que se vê por aí. Companheiras mulheres foram fazer faxina, trabalhar em casas de família, em hospitais, em asilos. Teve até uma que chegou a trabalhar em manicômio. Voltou pra Vila Operária e nos divertia com as histórias dos malucos. Reparei depois que ela evitava falar muito desse trabalho, pelo menos da parte séria do negócio. Outros companheiros menos perspicazes não podiam notar. Mas eu notava em seus olhos que muita coisa ruim ela tinha visto por lá, e que aquilo tinha mexido com ela.

Pois então, muitos desses amigos pareciam imortais, ou "imorríveis", como a gente brincava entre os peões coveiros. (Coveiro não tem tempo nem de morrer. Era a frase que corria lá entre a gente.) E desses "imorríveis" eu vi vários morrendo. Dava um aperto no coração. Um nó na garganta. Mas que diferença realmente faz morrer aos 50 ou aos 80? Tenho saudades de todos eles. Mas creio que estejam bem no mundo dos mortos. Aqui embaixo era que a coisa apertava. Peão de fábrica entende bem disso.




terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Fantasmas

Mais um texto da série Crônicas da Vida Operária 



                                     ☆


Três e meia da manhã, clima frio, a gente no meio da BR. A gente que eu digo era eu e o Treze. Os dois a caminho do trabalho. Arrumei esse trabalho de frentista de posto. Época de vacas magras, muito magras. Não pude recusar o emprego. Não tinha jeito. Nessa época eu tava morando numa desditosa cidade de interior, que prefiro nem mencionar o nome. Morava longe do posto, morava longe de tudo. Morava, como eles dizem por lá, no pau do urubu. 

Uma vez comentei pra um forasteiro que morava no pau do urubu. O cara abriu os olhos em um esboço de sorriso e disse que nunca tinha ouvido um nome de bairro curioso daquele jeito. A turma do posto ouviu a conversa e caiu na gargalhada. O Mirandinha, gerente, ria também, meio acanhado, sem se misturar à peãozada.

Pois eu dizia, três e meia da manhã na BR, eu e o Treze. O Treze, um negão de um metro e noventa, esguio, canelinha fina, correu feito velocista e me deixou pra trás no breu da rodovia, tamanho o susto que tomamos. O fato é que vimos um vulto. Me arrepio só de lembrar. 

A rodovia pouco movimentada, vínhamos conversando na caminhada, passos ritmados no acostamento de granizo. E vimos à meia distância uma silhueta, no mato à beira da estrada. Nem deu tempo de pensar, o reflexo condicionado foi correr. E corremos. O Treze correu como devia correr da polícia no áureo vigor físico dos seus tempos de trombadinha, seus tempos de garoto transviado. As histórias que o Treze me contava me arrepiavam como me arrepia agora a memória do vulto. Não lembro direito a história desse apelido dele. Lembro que era algo relacionado à sua passagem pela Febem. Não sei se um número de protocolo interno, ou se referente ao tempo que ele passou lá.

Passávamos longas horas na frente das bombas de gasolina, geralmente no primeiro turno, com o dia amanhecendo, até a hora do almoço. E entre papos de mulher e futebol o Treze ia me contando a sua história. Histórias de malocas, de biqueiras, de fugas da polícia, ou de quando as fugas não resultavam exitosas e os milicos judiavam dele...Histórias tristes, umas muito violentas. Poucas histórias tinham um final bom. Algumas eram inusitadas e engraçadas. Gostava de ouvir o negão contar. Ele com aquele sotaque meio matuto, carregado nos erres, tinha jeito pra contar histórias. Tinha ritmo de cronista, preciso, marcado. Sabia sugerir drama, medo, angústia, suspense. Ritmado, catártico, envolvendo o ouvinte.

Ouvi histórias inacreditáveis naquela rodovia. Outro passatempo nosso era observar os passarinhos, o Treze tinha um notável conhecimento das aves. E também brincávamos de imaginar a profissão das pessoas pelos carros com que chegavam no posto. Por exemplo, vinha um bigodudo num Del Rey prateado, limpinho, bem ajeitado; o Treze arriscava um palpite:

 _ Médico. Certeza. 

Cinco minutos depois encostava um Karmann Ghia vermelho, com um playboy ao volante.

 _ Esse aí é filho de fazendeiro. 

Se encostava um casal, a brincadeira às vezes era dizer se a mulher era esposa ou amante. E nesse ritmo, entre histórias de antigamente, passarinhos, brincadeiras ordinárias, comíamos a manhã adentro, entre goles de café e baforadas de cigarro paraguaio.

Fiquei um pouco mais de dois anos nesse posto. Depois disso vieram outros perrengues, outros trabalhos mal-pagos. E vez ou outra eu ficava desempregado. Numa dessas vezes surgiu concurso pra guarda municipal da cidade. A mãe queria que eu fizesse. Me encheu o saco. Eu fiquei tentado, não nego, mas resisti firmemente. A gente passando dificuldade em casa. Mas eu falei pra mãe que meganha eu não virava. Que eu tinha consciência das coisas. 

A mãe insistia, dizia que guardinha de cidade pequena nem pega em arma, que não troca tiro com bandido nunca, que era aquele negócio de ficar tomando cafezinho em porta de repartição pública, ou separando briga de crianças na praça. Eu não caí no papo.

Vim pra cidade, me meti nuns serviços de entrega. Às vezes me tiravam de office-boy, me mandavam pagar conta, fazer depósito, buscar o almoço da turma. Não era tão ruim como pode parecer. Ficava na rua olhando a bunda das mulheres e observando as coisas. Nato observador, um flaneur de carteira assinada. Sempre dava pra dar uma escapada e tentar fugir da condição operária. 

Jogava papo nas vendedoras das lojas, pegava telefone. Levava uns livros na pasta, lia nas pracinhas. A vida tinha seu sabor.

Fui trabalhar no centro e via as coisas mais interessantes. Uma vez tirei uma onda com um muçulmano e tomei o maior enquadro na firma. Tava eu lá na fila do banco e me aparece um cara com uma bata de linho que cobria o corpo todo, um gorrinho cobrindo a cabeça. Devia ser um clérigo, presumo. Veio numa tentativa de furar a fila, arrumando pretexto com a moça do caixa. E vinha com uma latinha de coca cola na mão. 

 _ Não pode tomar pinga mas pode tomar coca cola, né?! O que é pior, brimo?

Falei tirando uma onda. Pensando que o cara fosse levar na esportiva. Ele parou na minha frente e me deu uma medida da cabeça aos pés, sério, desafiador.

Depois me chamaram no RH e me deram uma advertência. O pessoal ficou sabendo do incidente. Me disseram que eu não podia queimar o filme da empresa. 

Histórias como essa do banco eu vivi bem umas cinco. Andar na rua, interagir com as pessoas, com os clientes, é sempre ocasião de desentendimentos. As pessoas são imprevisíveis às vezes. Um que acha determinado comportamento normal, te trata bem. Aí você se comporta exatamente igual com uma outra pessoa e arruma bronca pro seu lado. Fiquei de saco cheio também. Tive saudades do interior, do posto, do pau do urubu, do Treze e dos outros meninos. Mas é sempre besteira cair nessa de nostalgia. Na época eu intuitivamente já desconfiava disso e tomei um bom caminho. Fui estudar e tentar outras profissões, olhando sempre pra frente. 

Como na madrugada da BR, encarei outros fantasmas pelo caminho. Às vezes a gente corre, às vezes bate de frente. Os fantasmas sempre aparecem. 

Queria poder contar que vi um ovni, que vi a loira do banheiro, qualquer coisa mais interessante. Meus fantasmas foram ordinários e corriqueiros. É quando a gente aprende a elaborar espiritualmente a vida. Simbolicamente, interiormente. Sábio é o homem introspectivo, que soube compreender os seus fantasmas, que soube sorver o que estes trazem de sentido.




domingo, 16 de janeiro de 2022

Transportando histórias

Da série Crônicas da Vida Operária 



                                    ☆


A curva do ônibus nem foi tão forte, mas a tia tombou e tivemos que parar pra acudir. Uma dona de uns 70 anos, forte, como diz o outro, pesada. Paramos o coletivo mas ela não tinha força de sozinha se levantar. Um grandão no fundo disse que tínhamos que tocar pro hospital, que era o correto a se fazer. Mas tava emocionado o grandão. A tia não tinha nem arranhado o braço. O Ademar motorista por sua vez também não cometeu nenhuma loucura. Vinha sereno ao volante nesse dia. Coisa que acontece. 

 _ Mas e o braço do banco?, disse uma moça.

Realmente tava faltando um item no banco que a tia vinha. Já tinha reparado fazia uns dias e devia ter tomado providências. Se desse merda, o patrão comia meu rabo. Isso se não me mandasse embora. Acontece que o ônibus era clandestino. Tinha muito disso naquela época. E passava batido. Pouca fiscalização, se pintasse era sempre um dinheiro por fora e tava beleza. Havia centenas de clandestinos circulando pela cidade. Imagina, uma cidade grande dessa!

Mas a tia tava bem. Graças a Deus. Se a velha se estrepava eu tava fudido de verde e amarelo. Me estrepava junto. 

Foi nesse dia que eu voltei a rezar a mandinga do santo, que a tia Ana me chamou pra eu aprender com 12 anos. Ela me puxou pro quintal e me iniciou ali num ritual que, dizia ela, eu tinha que levar pro resto da vida. Vez ou outra eu esquecia aquilo, deixava pra lá. Mas naquele dia da queda da senhora eu voltei a fazer assiduamente, do jeitinho que a tia Ana tinha me ensinado. 

Depois disso não me lembro do medo ter me tomado de assalto. Acontecia as maiores loucuras do mundo naquele ônibus e eu mantinha sempre a maior calma. Sentava a bunda naquele banco velho de cobrador, com uma almofadinha macia que me acompanhava diuturnamente, e passava horas e horas pegando bilhetes e dinheiro do povo. Contando piada e dando esculacho no Ademar. E dava esculacho porque eu é que era a autoridade da linha. Tinha moral com o patrão, muitos anos de firma. Modéstia à parte, tinha uma habilidade incomum pra resolver os beós, pra dar ordens aos homens, pra colocar as coisas pra funcionar. Devia ter eu mesmo aberto firma, pra fazer dinheiro e ser respeitado no bairro. Mas eu não tinha pretensões. Vivia pra trabalhar e voltar pra casa. Um ou outro fim de semana na praia, algumas namoradinhas. Minha vida era essa. 

Ficou um pouco mais emocionante depois que eu dei pra passar no concurso da companhia de trens. Me deram umas poucas semanas de treinamento e me colocaram pra ser maquinista. No ônibus eu não dirigia, mas no trem era eu que pilotava a bagaça. 

No começo era tudo meio chato, ter que tomar nota das instruções, decorar nomes, funções, etc. Depois que eu dominei o painel de controle fiquei envaidecido. Gostava quando a composição atingia a velocidade máxima. E me deslumbrava com a paisagem, com o mato no entorno, com aqueles trilhos a perder de vista. 

Foi um tempo muito bom esse na companhia. Pouco depois de ingressar como funcionário concursado, já tinha uns contatos bons na categoria, uma meia dúzia de mulher atrás de mim, querendo casamento e tal, o Magalhães me chamou de canto e disse que tinha um negócio da China pra gente.

Ainda bem que eu não entrei na do Magalhães. O cara se picou pra Serra Pelada, no auge do garimpo. Foi e não deu mais notícia. Eu via aquelas reportagens na tv e ficava tentando encontrar o Magalhães nas imagens. Imagina que loucura. As imagens de Serra Pelada pareciam formigueiros, enxames humanos. Mas eu lembrava do Magalhães. Se tinha alguém do meu lado eu contava que o meu camarada Magalhães estava lá, que tinha largado tudo pra ir atrás de ser milionário garimpando ouro na Amazônia. 

A vida seguia a mesma na companhia. Entrava e saía gente, a turma sempre animada, piadista. Os maquinistas se cruzando no refeitório, nos banheiros, no café, contando as histórias dos atropelamentos, quem tinha mais mortes nas costas, o tanto de gente que tinha aleijado. Na maioria das vezes sem maldade alguma. Só por contar. Desencargo de consciência. "O sujeito que anda no trilho é que tá errado"! Alguém sempre repetia. A gente tinha que ter alguma frieza sempre. Tranquilidade para lidar com os contratempos. 

Só o Nequinha que uma vez entrou pelo cano com isso. Ele era novato, não sabia como a coisa funcionava. No primeiro atropelamento tomou nota do falecido e resolveu comparecer no velório. A família descobriu que ele que tinha esmigalhado o cara e a coisa desandou; pegaram ele de pau e não sei o que foi pior, se foi a cara amassada que rendeu uns dias de licença médica ou se foi a gozação da turma depois.

No mais, quem se lascava mesmo era a turma da limpeza de vias. Sempre contavam história de corpos destroçados que tinham que recolher. Às vezes chegavam com o presunto no necrotério e um engraçadinho perguntava: "Mas onde tá a cabeça? Tá faltando uma perna, um braço"

E nessa loucura toda o Magalhães só foi aparecer cinco anos depois. E apareceu entre alquebrado e místico. Um pouco mais calvo do que já era, uma barba de três ou quatro dias, os olhos verdes muito serenos entre vincos que o tempo lhe sulcara no rosto avermelhado. Veio contando histórias mirabolantes. Contou que teve mulheres, que entrara em desavenças, em aventuras homéricas floresta adentro, que se apaixonara por uma índia tipo Iracema, que ficara rico e depois pobre, e depois rico de novo. Mas que aparecera um inimigo, e que, jurado de morte, passara a procurar pajelanças pra fechar o corpo. Uma história mais impressionante que a outra! 

O que era ser maquinista de trem frente ao Magalhães das mirabolantes histórias floresta adentro? Eu já tava ficando meio deprimido quando meu camarada Magalhães chegou aos infortúnios do fim de sua história. 

Disse ele que fechou lá o corpo. E que escapou de duas ou três emboscadas do sujeito que lhe jurara. Até que resolveu dar cabo do sujeito. Ele e um compadre. O compadre furou o peito do sujeito com um tiro de calibre doze, ao que o Magalhães "temperou", palavras dele, com as seis balas de um 38. E ficou sem inimigos a partir desse dia. Mas depois pegou uma malária muito tenebrosa. Vendo que corria risco de vida, se meteu num avião e voltou. Chegou então a um hospital e deixou lá suas pepitas de ouro, em pagamento a um intensivo tratamento, ao fim do qual, uns dois meses depois, dizia ele que tinha saído com tudo em cima. 

Mas já não tinha emprego. Tinha boas histórias pra contar, mas não usufruia, como nós, de um salário certo, embora não muito generoso. Tentei levar ele no terreiro da tia Ana. Achei que seria bom. Ele não quis. Se amigou depois com uma moça muito engraçadinha da zona sul e se aprumou na vida.

Eu, uns anos depois disso, pedi pra sair da companhia. Tava cansado de atropelamentos. Quatorze ao todo. Treze óbitos. Não me sentia culpado. Mas queria uma coisa mais sossegada. Meu trabalho no transporte público acabou assim. Longos anos levando o povo pra cima e pra baixo, arrumando histórias pra contar.




terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O vírus do neoliberalismo

Essa virada de 21 pra 22 marca dois anos da pandemia da covid-19 no mundo. No Brasil, computamos mais de 600 mil mortes. Todo mundo aqui perdeu parente ou conhecido pra doença. A covid-19 veio como um furacão e deixou um rastro de destruição. Muita gente perdeu o emprego. Muita gente entrou em crises de depressão e ansiedade. A covid trouxe muito sofrimento, tirou o sono e a paz das pessoas. Mas por ventura poderia ter sido diferente? Por que é que as coisas transcorreram com tamanha barbaridade? É preciso ponderar as condições sociais que a covid encontrou por aqui, e como encontrou terreno fértil pra se disseminar. 


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Quando a epidemia de covid-19 chegou ao Brasil, em meados de março de 2020, chegou pelos aeroportos, sobretudo por pessoas vindas da Itália. Ou seja, a priori as infecções por covid vitimaram pessoas de classes sociais mais abastadas. Com o passar de semanas e meses, o jogo virou, por assim dizer, com a democratização das infecções a curto prazo, e, posteriormente, a médio prazo, com as infecções vitimando sobretudo as classes mais populares, haja visto que as elites e a classe média lograram muito maior êxito no cumprimento do isolamento social necessário ao combate da covid.

Ou seja, em pouco tempo foi possível observar o peso das abissais desigualdades sociais brasileiras ocasionar um morticínio. Porque o povo pobre brasileiro vive naturalmente aglomerado, seja nos transportes públicos de péssima qualidade e de capacidade reduzida de serviço, seja nas favelas e bairros populares, onde vivem enormes contingentes de pessoas, seja dentro das próprias habitações das famílias, em geral diminutas e precárias. Tudo isso facilitou o trabalho do vírus em sua disseminação e replicação. Em poucas semanas e meses o número de infecções, internações e óbitos aumentou exponencialmente, ao passo em que, como vínhamos dizendo, transpôs de uma classe social à outra. De uma circunstância fortuita, em que o vírus alcançava especificamente pessoas abonadas, que andam de avião e que viajam à Europa, à pessoas simples do povo, que são estruturalmente adoecidas e mortas nas epidemias que surgem no mundo. Quer dizer, no caso da covid se cumpriu o que sistematicamente se cumpre sempre: a nova moléstia faz suas vítimas no campo das classes sociais que padecem com a pobreza. No caso do capitalismo de cunho neoliberal, conjuntura contemporânea nossa, enormes contingentes são relegados a uma situação de penúria, de vulnerabilidade e marginalidade. 

No Brasil ainda que temos o SUS, um sistema universal de saúde, público, conquista das lutas políticas e sociais que se consolidou na Constituição Federal de 1988. E embora muitas vezes deficiente, por conta do sucateamento nesse período de políticas neoliberais, com orçamentos insuficientes, é um sistema que muito ajuda a população. Não fosse o SUS, o número de mortes no Brasil seria muito mais alto. 

Mas o contexto neoliberal nos trás exatamente isso; ou a privatização dos serviços essenciais à população, como é o caso dos Estados Unidos, onde muitas pessoas morreram nos hospitais e seus corpos foram abandonados pelos familiares, porque estes não teriam condições de arcar com os custos hospitalares; ou o sistemático e perverso sucateamento dos serviços públicos nos países que ainda oferecem esses serviços. Porque a lógica do neoliberalismo é a lógica dos ajustes fiscais, das privatizações, do mercado regulado por si mesmo, do estado mínimo. Ou seja, bases que favorecem aos bancos e aos rentistas, à acumulação do capital nas mesmas mãos de sempre, ao capital concentrado, aos monopólios e colossais desigualdades sociais oriundas desse modelo social.

No caso da covid era uma tragédia anunciada. Bastaria que o vírus tivesse tempo oportuno para se espalhar e fatalmente vitimaria a faixa social dos excluídos de sempre. 

Em alguns momentos, por ocasião de conjunturas específicas da política e da economia, da luta de classes e suas correlações, ascendem ao poder políticos e partidos políticos que cedem um pouco mais de benefícios aos trabalhadores e aos pobres, que assumem uma política econômica mais favorável à geração de renda, ao crescimento, com políticas de distribuição de renda, com a economia girando mais, dando ao povo crédito e poder de compra, condições de melhorar de vida e de superar a pobreza. Mas esses ciclos não duram muito. Tão logo vem as crises econômicas, com a superprodução e a queda nas taxas de lucro das burguesias, e a condição política se aperta para os trabalhadores. Ascendem governos abertamente neoliberais, em geral com discursos anti-corrupção muito dissimulados, com a imprensa martelando dia e noite discursos afeitos ideologicamente ao mercado e à livre concorrência. Aí se desvanecem direitos trabalhistas, direitos aos serviços públicos essenciais como saúde, educação, moradia, etc.

O povo fica desguarnecido em meio a possíveis e eventuais crises, sejam sociais e econômicas, sejam climáticas, ou, como é o caso da covid, uma crise sanitária e pandêmica. Fica impossível o estado oferecer à população a estratégia necessária ao combate do vírus. Não há como se criar isso do dia pra noite. Os estados que conseguiram oferecer efetiva proteção aos seus cidadãos foram justamente os estados menos balizados pelo sistema e pelo pensamento neoliberal. É o caso da China principalmente, que embora não seja um país socialista, como alguns dizem, é um país que passou por uma revolução socialista e que teve o mérito de criar uma estrutura social diferente do capitalismo selvagem do ocidente. Sua estrutura política, com o Partido Comunista Chinês à cabeça, logrou rapidamente debelar a transmissão do vírus em seu território, com uma aplicação exemplar da sociedade civil, num movimento extraordinário de cooperação e de disciplina. A China, um país de dimensões continentais, com uma população absurdamente grande, teve um número de mortes irrisório. E isso sendo o primeiro país onde se conheceu o vírus. 

Outros países do ocidente, capitalistas, mas de condições de bem estar social, também tiveram oportunidade de oferecer muito maior proteção aos seus cidadãos. Mas em nenhum país houve tanto êxito como na China. E isso porque na China, mais do que um sistema materialmente anti-neoliberal, existe um pensamento social que é distinto e que não aceita as premissas liberaloides ou neoliberaloides. E isso por mais críticas que se possa ter ao regime chinês. Mas o oriental, em sua educação e cultura, é profusamente mais imbuído de sentido coletivo do que nós no ocidente. E a lógica do neoliberalismo é essa coisa do individualismo, que é egoísta, presunçoso; do sujeito anti-vacina, por exemplo, que se envaidece por não se imunizar, que com sua arrogância obtusa prejudica a si mesmo e prejudica o convívio social, porque sem ampla vacinação não há possibilidade de se limitar o vírus. 

De tudo isso depreendemos que o combate à covid, como o combate às doenças em geral, às epidemias, se daria em muito melhores condições não fosse o neoliberalismo e as mazelas sociais que este engendra. As perspectivas seriam melhores não fosse o neoliberalismo. Haveria condições de socialmente se ajustar as coisas. Haveria condições da humanidade alcançar um progresso comum, uma prosperidade comum, em condições democráticas, com equidade, com solidariedade em todos os níveis, com tecnologia universalizada, com um propósito comum de bem estar e de civilidade. 

Por enquanto estamos longe disso. Ainda bem que a vacina começa a chegar à niveis bons, de imunidade de rebanho. Mas 600 mil mortes no Brasil foi um crime, claro que com culpa do atual governo, negacionista e genocida, mas que evidentemente extrapola essa esfera. Pelo menos metade dessas mortes tem um nome. Morreram de neoliberalismo.






quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Memórias de 40 anos atrás

Da série Crônicas da Vida Operária 



                                    ☆


Um dia desses aí fiquei gripada e me lembrei de quando descia do ônibus no Brás pra entrar na fábrica. Coisa de memória olfativa, como se o cheiro no meu nariz 40 anos depois fosse o mesmo de um determinado instante em que chegava no trabalho, num tempo já remoto. Curioso, né. Um cheiro, uma sensação olfativa agora que me remete à vida operária de outrora, mais especificamente de um momento exato em que eu adentrava a fábrica. 

E era uma fábrica de pão, muito grande, vários setores, gente indo e vindo, homens descarregando sacos de farinha, de açúcar, as companheiras do setor de embalagem trazendo os pedidos, me dizendo que se incomodavam da quentura que vinha dos fornos, que não aguentavam mais cheiro de pão. Imagina, que loucura, um cheiro tão popular, tão aclamado entre poetas e pessoas do povo. Mas a gente não aguentava mais cheiro de pão. Eram fornadas e fornadas. O dia inteiro saindo pão. Oito, nove, dez horas por dia com aquele mesmo cheiro na cara da gente.

Depois o cheiro da gripe no nariz me lembrou outras passagens da vida, de antes, de depois, de tantos momentos diferentes. Daquele tempo me lembrei de um dia em que eu tava no supletivo, o professor de matemática explicando equações, riscando um estridente giz na lousa. Os colegas atentos, a maioria com cara de não entender a matéria. 

Fiz supletivo numa escola fuleira da rua Sete de Abril. Chegava lá depois do turno da fábrica, direto, sem passar em casa, sem jantar. E na correria. Saía com a rua escura e semi-deserta, ia chegar em casa depois das onze da noite e com o estômago revirando de fome. Nessa época a gente morava na zona norte, de modo que eu circulava por diferentes regiões da cidade ao longo do dia. Sacudia no ônibus o dia inteiro, tomando cuidado com os tarados, tirando breves cochilos, sempre com cara de sono, meio descabelada, preocupada com os horários, inventando possíveis desculpas para eventuais atrasos. Na bolsa sempre uma cartelinha de comprimidos pra azia. Se o patrão dava bronca já me surgia uma queimação na boca do estômago. Um comprimido pra dentro. A gente não podia responder, não havia condições de contestar. O silêncio era a melhor estratégia 

Em casa também era bom tomar cuidado com o que se dizia. Certa vez, tava me lembrando esses dias, levei um esporro da mãe por comentar que um turco do mercado municipal tinha me chamado pra sair.

 _ Maria Aurélia, você nunca mais me fale isso! Tá entendendo?!

 _ Mas o que foi que eu fiz? Eu, hein.

 _ Mulher rampeira é que fica com esse tipo de conversa. Entende isso de uma vez. Se um homem te chama pra sair, você diz que não e morre o assunto. Esse tipo de coisa moça de família não fica falando por aí! 

Era assim que era naquele tempo. A mãe esculachava e o pai dava bordoada se ficasse contrariado. Os meninos eram mais soltos. Já a gente tinha que andar na linha pra não dar ocasião de reprimenda. Em casa era assim, na fábrica também. 

O ambiente podia ser muito hostil. Até a cidade, pra dizer a verdade, me parecia hostil. Tinha coisas bonitas. Claro, sempre tem. Mas a cidade tinha suas feiuras, suas maldades. De manhã a gente saía de casa com os dentes rangendo pelo frio. Sair da cama quente pra rua gelada era um choque térmico razoavelmente mordaz. Tínhamos repetidas doenças respiratórias. Do quentinho da cama pro frio da rua, e dali pra quentura da fábrica. A alimentação precária, lanches e salgadinhos pra forrar a barriga nos horários de trânsito até a escola. Frio de novo à noite, muitas vezes chuva. Era uma loucura. E nos meses de chuva tinha as enchentes. A cidade parava, tudo intransitável. Uma vez perdi a sandália perto da marginal Tietê. A enxurrada levou embora. Cheguei em casa descalça. A gente descia com água pelas canelas nas chuvas mais amenas do verão. Nas chuvas torrenciais a coisa era muito feia mesmo. Quantas vezes andei com água pela cintura! Dava um frio na espinha indizível quando a água começava a bater na virilha. Uma tristeza, um desgosto profundo. Dava vontade de morrer.

Chegava em casa e tomava um banho de meia hora. A mãe esmurrando a porta do banheiro. Dizia que puxava muita eletricidade. Antes de cair na cama um comprimidinho de azia e um banho de álcool nos pés. Dia seguinte tinha labuta de novo. Era preciso pôr o sono em dia. Mesmo com a mãe resmungando pelos cantos. Em dia assim ela ficava quase tão puta como em dia de chegar a conta do telefone. A gente tinha que ter artimanhas pra fugir do embate. Antevíamos as datas espinhosas e tratávamos também de preparar o espírito pras palavras duras que fatalmente nos seriam lançadas. 

No mais era isso que vivíamos em São Paulo naquela época. Correria, dificuldades. Todo mundo trabalhando pra dar conta da vida. Foi mais ou menos por essa época que conheci o primeiro marido. Ele tinha bigode e dirigia carros de segunda mão que trocava duas ou três vezes por ano. Era bom comigo, atencioso, delicado. Depois de umas semanas que estávamos namorando fiquei sabendo que ele tinha dado um treme-terra na Cecília do departamento pessoal. Em alguma das salas do escritório da fábrica. Foi assim que falou a Neusa, minha colega de seção, que me adiantou a história pensando que ia azedar o namoro. Mas eu fui uma das primeiras moças lá que se casou.

Até virem as crianças a gente saracoteou bastante pelos bailes, pelas festinhas. Antes do casamento tinha sempre que ir um irmão comigo no passeio. A gente andava muito pela cidade. Eu gostava de ver os anúncios, as placas da publicidade. São Paulo nessa época era um emaranhado de informações visuais, um outdoor do lado do outro. E as ruas eram sujas no centro da cidade. Muita gente circulando, vendedores ambulantes, crianças de rua, pastores fazendo pregações nas praças. Muitas fábricas jogando no ar fumaça até não poder mais, a poluição dos automóveis, nos engarrafamentos, nos pontos de ônibus. O trem, por exemplo, ia e vinha dos subúrbios sempre apinhado de gente, uma massa de trabalhadores atrás do sustento. São Paulo era uma loucura. E nossa vida não era muito diferente não.




terça-feira, 21 de dezembro de 2021

As ideologias no chão de fábrica

Quarta crônica da série Crônicas da Vida Operária 


                                  ☆





Filho da puta tem em todo lugar. Não tem jeito. Em todo lugar se encontra esse tipo de gente. No chão de fábrica também tinha. A começar pelos chefes. A maioria era de filhos das putas profissionais. Sabiam ser carrascos, gostavam de tripudiar a peãozada, de gozar da nossa cara. Às vezes de forma muito sutil, com um risinho de canto de boca, uma palavra maldosa disfarçada em meio a um pretenso conselho. Canalhas, cínicos. Dava pra sentir o gozo deles ao soltarem as listas de dispensa, ou quando afixavam no quadro de avisos a escala da hora extra, fudendo com a gente que ia perder a sexta feira à noite. 

Mas os que nos metiam mais raiva eram os puxa-sacos, os peões como a gente que ficavam lambendo os caras da chefia. O mais filho da puta conheci numa indústria têxtil em que passei uns meses. Ali era mais mulher trabalhando, operando as máquinas. Os poucos homens faziam os trabalhos acessórios. Um deles era o Antônio Justino. Filho da puta de marca maior. Cagueta. Tinha o péssimo costume de entregar os deslizes da turma. Gente que chegava atrasada, e que um companheiro batia o cartão por camaradagem; pequenas avarias nas máquinas, por distração na operação. Esse tipo de coisa. O filho da puta entregava mesmo. E se achava no direito de entregar. Se envaidecia, se inchava de orgulho, achava que era o peão padrão de qualidade, caxias, irrepreensível, o peão que qualquer patrão queria em sua firma.

Pois bem, foi assim até que uns mal-elementos primos de uma operária delatada resolveram amaciar a carne do Justino. Pegaram o sujeito num beco perto da fábrica, a tarde caindo, o dia quase escuro. Pegaram e judiaram. Deixaram o Justino todo moído de porrada. Era o aviso pro cara deixar de ser filho da puta. 

Depois disso não passei lá muito tempo. Difícil um filho da puta se emendar. Lembro bem do regozijo coletivo da turma ao saber do acontecido. Até o Elói da portaria de certa forma apreciou o corretivo. E o Elói era extremamente religioso. Elói foi um dos primeiros crentes da Vila Operária. Desses que vão de terno e gravata pela rua, bíblia debaixo do braço, dando a paz do senhor pro pessoal. Elói era religioso mas também não gostava de filhos da puta. 

Os crentes da Vila Operária eram como os crentes de todo lugar daquela época. Trabalhavam duro de dia e à noite faziam alguma atividade da igreja. Não tinham tv em casa, e isso numa época em que a tv se popularizava muito nas casas operárias. Eram discretos de dia, e à noite rezavam meio alto nas igrejinhas improvisadas em portas de garagem. Banquinhos de madeira mal-arranjados, luzes amarelentas, um cidadão empunhando uma viola à frente dos fiéis, regendo os hinos, o pastor pregando o reino dos céus. E era um discurso esquisito, mas tirava muita gente da cachaça, atraía umas donas de casa. Sempre tinha meia dúzia de gente nas igrejinhas. As mulheres de cabelos compridos e saias abaixo das canelas, entravam no templo e ajoelhavam aos pés dos banquinhos de madeira, olhos fechados, a boca murmurando orações. E cantavam, cantavam, mal afinados, vozes sôfregas, o ar faltando. Cantavam e rezavam lá dentro. Fora da igreja tentavam incorporar novos membros. No começo não dava muito certo. Teve uma época depois que o movimento deles ficou mais encorpado. Eram conservadores, mas não eram exatamente reacionários. Não todos. Eram pessoas simples, de pouca leitura. Na Vila Operária as igrejas juntavam menos gente que na favela. Tinha lá um morro em que prosperaram umas quatro ou cinco igrejinhas. No mesmo morro havia uma só capelinha católica, igualmente improvisada.

Era curioso observar a movimentação dos religiosos. Depois de tantas décadas tenho uma noção mais aclarada da coisa, obvio, mas na época já dava pra, de alguma forma, observar as tendências.

Na Vila Operária, por exemplo, teve uma época em que chegou um padre operário. Padre Inácio, homem inteligente, meio calvo, olhos brilhantes, rosto pacífico. Sujeito calmo, de bom humor. Se meteu numas fábricas como se peão de fábrica fosse. E isso numa época da pesada, em que a repressão comia solta. O homem era politizado, esclarecia os operários, tinha coragem. Me mudei e depois não tive mais notícias. 

A Vila Operária era assim. Tinha filho da puta, tinha padre. Tinha de tudo na Vila Operária. A Vila Operária nos dava uma boa medida do mundo. Éramos cosmopolitas nas ruas da Vila Operária. O nosso mundo era sim muito pujante e muito vivo.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Vila Industrial

Continuação da série Crônicas da Vida Operária 


                                    ☆



O chão da Vila Industrial era mais avermelhado em Julho. Tempo de frio, não chovia de jeito nenhum. Subia aquela poeira das estradinhas que iam dar na roça. Ida e vinda constante de caminhões, caminhonetes, ônibus de operários, ônibus escolar, eventualmente carrinhos particulares, todos muito simples, que morriam no caminho, a turma tendo que descer pra empurrar. 

Minhas memórias do inverno são as mais satisfatórias, apesar do ar mais pesado, da fuligem e da poluição. A bem dizer, o ano inteiro era tempo de fumacê nas chaminés das fábricas. Os asmáticos sofriam terrivelmente. O sujeito tinha que ter pulmão bom pra morar na Vila Industrial. Tísico ali não se criava. As crianças doentinhas tinham de ser levadas pra outros arredores mais salubres. 

O inverno era rigoroso, mas acendíamos fogueiras de noites inteiras, com música, namoricos, pinhão na brasa e outros atrativos juninos. Saboreávamos, por exemplo, canjica, arroz doce, doce de abóbora. Tinha arrasta pé e diversão, tinha também briga, risca-faca, homens de bucho furado nas desavenças que em geral se originavam por causa de mulher. Mexer com mulher casada na Vila Industrial era praticamente sentença de morte.

O mais curioso ali na Vila Industrial era a mistura de gentes e culturas. Tinha os nordestinos, arretados, de sangue quente, Hércules Quasimodos do chão de fábrica; tinha os italianos, de temperamento semelhante; e os espanhóis. Os portugueses eram mais discretos. E os japoneses, muito cordiais, de poucas amizades mas de muito bons modos. Árabe tinha também, em menor quantidade, como os polacos. Era uma mistura interessantíssima. Sempre curioso observar as diferenças entre uma terra e outra, os hábitos arraigados, mais característicos das culturas, e aqueles hábitos mais flexíveis, que iam sendo deixados de lado à medida em que as comunidades se adaptavam ao novo país. Algumas famílias de origem italiana, por exemplo, já falavam só o português. Um palavrão ou outro soltava-se na velha língua. Desconfio que muitos não saberiam mais nem dar a tradução certa. Sangue italiano completamente convertido em brasileiro. Não blasfemavam. Pelo contrário, eram devotos e supersticiosos. De jeito nenhum falavam mal de falecido. Abaixavam a cabeça e repetiam a fórmula do "que Deus o tenha". 

Os japoneses não eram de bater cartão em fábrica. Eram muito independentes e gostavam de trabalhar por conta própria fosse na roça ou no asfalto. Uns plantavam legumes e hortaliças, outros mais espertos mexiam com assistência técnica. Eram sorridentes e faziam ginástica, muito esguios e de hábitos modestos. Eram certamente os que menos se misturavam. Aparentemente eram comedidos em tudo. Disciplina asiática.

Os espanhóis eram os mais lascivos, gostavam de farra e apreciavam as aventuras do adultério. 

Certa vez flagrei Seu Argemiro currando uma moça nos fundos de sua oficina de ferreiro. Uma mulher de peitos generosos, mulata, rosto muito simpático. No lado do balcão em que me meti ali dava pra ver parte dos fundos do recinto. Entre velharias e móveis estropiados o espanhol copulava ardorosamente com a morena. A moça inclinada por sobre uma mesa de madeira, Argemiro pegando- a pelas costas, com esgar de deleite, puxando-lhe os cabelos por debaixo do lenço. Era época em que algumas mulheres andavam ainda de lenço. 

Alguns homens também andavam de chapéu, ou boina. Era um pessoal de roupas mais triviais o da Vila Industrial. Macacões de fábrica, vestimenta simples do trabalho braçal, sem muita ocasião pra ostentar arrumação, perfume, essas coisas. Mesmo em hora de divertimento havia pouco interesse em se arrumar. Andávamos todos entre as mesmas famílias de sempre. Tínhamos intimidade, nos dávamos bem e nos tratávamos como a velhos camaradas. As mulheres ainda que se arrumavam mais, mas não como as donas do centro. 

Em certa medida tínhamos na Vila Industrial uma vida mais frugal. Tinha os brutalismos do chão de fábrica, o regime semi-inclemente das fábricas de antigamente, pouco arejado, ruidoso, estafante e tedioso. Isso levávamos em ritmo maquinal. Nossos pais já vinham disso. Tínhamos o ritmo da labuta impregnado no caráter. Aproveitámos a vida apesar da condição operária. Nossos fins de semana eram de alegria, contemplávamos os pequenos detalhes. Jogávamos bola nas encostas do morro, fazíamos o famoso churrasco de gato, carne de segunda mas temperada com afeto. Íamos às matinês no domingo, ver as fitas de bang-bang, Carlitos, Mazaropi. Não era propriamente uma vida boa. Mas não era ruim. Na singeleza do cotidiano atravessávamos a vida. Comíamos fruta do pé, íamos aos bailes, tínhamos uma boa vista da paisagem ali pelos arrabaldes. Era bonito ver o sol cair nas tardes da estrada, os tons alaranjados do céu em contraste com o banhado de poéticas paletas verdes. Éramos operários da indústria, a maioria filhos de operários da indústria, mas trazíamos ainda um pouco da condição contemplativa dos homens do campo. Tomávamos chá, sabíamos das ervas. Andar pelo subúrbio da Vila Industrial era experimentar diferentes fragrâncias a cada 10 ou 20 metros. Do jardim de uma casa sentia-se cheiro de anis, indo em frente vinha cheiro de menta, ou erva doce. E por aí afora. Muito cheiro de mato nos terrenos grandes ainda sem construções, cheiro das queimadas, cheiro de terra.

Tínhamos uma relação muito aberta com aquele pedaço de chão. Nem sempre essa relação aberta se estendia totalmente às pessoas, afinal sempre há um ou outro mais arisco, menos dado ao trato social, um que bate na mãe, ou que resolve fumar droga. Seu Irandir, sindicalista da velha guarda, combativo, costumava dizer que filho da puta e problemático nasce até nas melhores famílias operárias. Mas em geral desfrutávamos de relações muito francas, muito apraziveis. Havia certamente diferenças entre as gerações. Daquela época lembro bem da revolução sexual que se urdia entre os jovens. Havia ali remanescentes do sonho anarquista, gente que aspirava a uma sexualidade mais natural, mas no geral eram famílias que traziam hábitos conservadores. Queriam casar as filhas virgens, não deixavam as meninas saírem sozinhas. Não que isso adiantasse de alguma coisa. 

O lugar mais interessante da Vila Industrial era conhecido por nós como o baixio da metelança. Nome assustador, verdade. O lugar era uma espécie de jardim da promiscuidade. Um oásis dos casaizinhos num trecho mais recôndito de bosque. Tipo um brejo, com troncos de velhas árvores caídas e maritacas cantando. Era ali que a moça de família era feliz sem o pai sequer desconfiar.

Havia uma espécie de código de ética para a fornicação. O que acontecia no baixio ficava no baixio. Se um cara, por exemplo, pegava uma moça e saía espalhando ou comentando, nunca mais  pegava nenhuma outra moça. O silêncio era condição da vida sexual do cara. De algum jeito as meninas se articulavam pra acabar também com a reputação do falastrão. E dava certo. 

Outras revoluções foram similarmente arquietadas no seio da Vila Industrial. Algumas mais sutis, outras menos. Veio depois muitas novidades. Veio a droga, enfim, todas essas coisas de cidade que vai crescendo. E tudo nessa vida muda. Ficamos com saudade dos nossos dias de jovens. Era um tempo bom, apesar de tudo. Lembro com nostalgia do chão avermelhado da Vila Industrial.