quarta-feira, 19 de julho de 2023

Jesus Revolution

Jesus Revolution (filme)

Uma experiência religiosa entre os hippies americanos 



Eu sou atraído muito facilmente por qualquer coisa relacionada à contracultura. Fiquei sabendo desse filme Jesus Revolution esses dias, e corri pra assistir.

Como já coloquei no subtítulo, se trata da história de um movimento religioso entre os hippies. Começou no início dos anos 70 nos Estados Unidos, entre pessoas do movimento hippie que buscavam uma experiência apartada das drogas. O movimento hippie, todo mundo sabe, era um movimento que preconizava a liberdade, a paz e o amor, e fazia isso através de uma revolução comportamental, de rompimento com os pensamentos retrógrados, cerceadores, moralistas e hipócritas das gerações anteriores e do que havia de estabelecido na sociedade ocidental. Pois bem, fazia parte disso o uso de drogas como abertura de uma viagem interior. Era um tempo de uso abundante de substâncias psicoativas como cocaína, heroína, maconha e o famigerado LSD. Era uma tentativa de abrir as portas da percepção, de uma viagem meio mística, libertária, uma coisa de mergulhar em novas ondas espirituais, contrárias à guerra e à violência, com experiências de amor-livre, de claras rupturas com o padrão ocidental de convívio. 

Acontece que nessa viagem muita gente foi e não voltou. A experiência com as drogas tirou muita gente de órbita. Muitos morreram de overdose.

Esse movimento religioso entre os hippies foi com a intenção de mostrar que a viagem das drogas não tinha dado certo, e que a verdadeira viagem tava num encontro com Jesus. O filme conta essa história ao tratar de Lonnie Frisbee, um maluco que viajava os Estados Unidos pregando para os hippies. Ele conhece o pastor Chuck Smith, líder de uma pequena igreja no sul da Califórnia, e juntos passam a formar um grande movimento, batizando milhares de jovens. 

Tava contando o enredo do filme pra um amigo e ele me disse o seguinte: 

- Mas que merda, Medina! Então esses caras viraram evangélicos; não era mais hippie o negócio. 

Pois é, tem essa controvérsia. Até que medida esse filme, por exemplo, não se inscreve na tentativa de gerar uma publicidade positiva à religião evangélica? Os evangélicos fazem isso, eles criam produtos de cultura, música, etc, pra fazer proselitismo. Os diretores de Jesus Revolution já trabalham com isso. Tem a mensagem religiosa como pano de fundo. Na verdade eles querem render tributo ao movimento evangélico norte-americano. A própria apresentação do filme, nas sinopses e cartazes, faz referência ao movimento religioso dos hippies como "o maior avivamento espiritual da história dos Estados Unidos". 

E só quem é evangélico não fica com o pé atrás com o que vem do movimento evangélico. Em se tratando de movimento evangélico, todo cuidado é pouco. Aqui no Brasil a gente conhece bem a história. Esses caras inclusive chegaram no governo, se associando ao bolsonarismo, e só fizeram merda.

Ok, tendo dito isto, tendo deixado esse parêntese bem claro, digo que o filme vale a pena ser assistido e debatido. É um filme bom, muito bem feito, melhor que muitos filmes que estão por aí em cartaz. O movimento hippie é muito interessante e a experiência religiosa e mística pode sim ser bonita e muito válida. Independente se o telespectador é religioso ou ateu, Jesus Revolution é um filme que merece sim ser assistido. Kelsey Grammer, no papel do experiente pastor, faz um excelente trabalho. Vale a pena reparar. A música é excelente, os enquadramentos, a fotografia, tudo bem feito. Só o roteiro que não é dos mais originais. Coisa que faz parte do gênero também. 

De todo modo, a experiência hippie traz uma série de elementos expressivos e consideráveis para a reflexão atual. Sem dúvida que é preciso revisitar as experiências de utopia, de contracultura e contra-hegemonia, as experiências de reconsideração ética, de inovações estéticas, de quebras de paradigmas e de progressismo comportamental. Cientes de que o movimento do capital vai querer cooptar tudo isso, de que as religiões e os misticismos poderão ser manobrados por mentes maquiavélicas, que se utilizarão de um visual descolado, de um discurso com gírias, com bastante choque ideológico, com estratégias das mais sorrateiras, com mensagens subliminares, laboratórios de catarses coletivas, hipnose, etc.

Aí a gente precisa ter um filtro pra passar o negócio. Não podemos prescindir da crítica. Nossa fruição estética, nosso encantamento com a beleza da história humana, tudo, absolutamente tudo, deverá vir acompanhado da crítica. Não é à toa que eu sou fascinado pela contracultura. Viva a crítica! Viva os que querem mudar o mundo!






terça-feira, 4 de abril de 2023

Com Yeshuah na jornada do silêncio

Poema místico



Yeshuah, mestre e Deus

Visitaria nossa cidade

E nós o esperávamos! 


Corações ansiosos na fria noite da vigília

Cabeças pendentes de sono

Nossos ossos doloridos

Nossos lábios ressecados.

Yeshuah chegou no limiar da aurora 

Rosto cortado pelo vento

Roupas em desalinho, ofegante respiração de caminhante.


Quisemos lavar seus pés 

Oferecemos água de nossos cantis

Queríamos a intimidade do mestre

Falar como próximos que partilham a camaradagem de uma jornada

Mas Yeshuah queria nos mostrar a virtude do silêncio. 

Falava aos nossos corações com seu olhar.


Quisemos que bebesse do leite fresco que providenciáramos, tínhamos mel e queijos, pães e frutas secas.

Mas o mestre nos presenteou com o jejum.

Haveria o tempo de comer

Primeiro queria caminhar conosco entre os raios multicores que atravessavam a manhã da nossa cidade. 

As ruas vazias...


Levamos Yeshuah ao nosso melhor jardim

Sentamos silentes aos seus pés. 

A manhã ainda fria, nossos corpos enregelados

O ar puro penetrando os pulmões em compassada respiração 

Os raios do sol incipientes.


Yeshuah nos fitou nos olhos

E um raio de sol atingiu-lhe as pupilas...

Belíssimas!

Nos revelavam a beleza da eternidade 

A ternura do absoluto 

A memória de quando ainda não existíamos

A paz de quando sequer tínhamos pensamentos. 


Mas era preciso levantar do nosso furtivo êxtase.

O mestre quis sair da cidade 

Pra nos levar ao cume de uma montanha.

Tínhamos que empreender marcha.


Um dia de caminhada e chegamos ao sopé de uma montanha.

Montamos acampamento 

Tratamos de fazer fogo

O céu era especialmente bonito

E a noite se anunciava fria.

Em torno do fogo o senhor da vida quis partir o pão

E o pão tinha sabor de algo absolutamente antigo e novo

De um revigoramento sublime 

Que recuperava o corpo e dava ao coração alegria singular e inaudita


Quiserámos de novo resistir em voltar à realidade. 

Yeshuah continuava a nos falar ao coração 

E nos surpreendeu com a ordem de levantar acampamento. 

Iria nos guiar montanha acima

Enquanto nos falava das coisas da vida e da morte 


Caminhávamos pressurosos

E então o mestre nos advertiu a ter calma e a saborear também o caminho, passo a passo

E suas palavras pareciam mesmo dar o ritmo para uma suave andança. 


Nos falou da cruz

Das horas da cruz

E lágrimas nos corriam abundantes pelas faces

Tão duras eram as desventuras que o mestre nos narrava

E como por um passe de mágica começamos a notar as semelhanças de nossas dores com as terríveis dores de sua cruz.

Ouvíamos o agoniado gotejar do sangue

Nossas gargantas secavam como se fosse meio dia com sol forte

E a fadiga nos molestava em sucessivas tentações e soluços. 


Era um trecho escarpado da subida

E sucumbir seria fácil não fosse a valorosíssima companhia do mestre.

Chegamos ao alto da montanha 

Yeshuah então nos permitiu tragar uma água de perdão. 


No céu escuro um corvo negro cruzou a noite 

E Yeshuah nos falava dos florescentes sonhos dos místicos de todos os tempos

Dos risonhos tremeliques do menino-Deus na manjedoura

Dos contemplativos nos desertos dos séculos 

De como se aproximaram do trono da manjedoura

E tocaram com suas mãos os pezinhos e as mãozinhas do recém-nascido de Belém. 

Ficamos absortos e como que caíamos por terra ante suas preciosas e doces palavras.

Yeshuah não nos deixou quedar pelo terreno 

Iria nos levar adiante

Foi quando percebemos que muito mais havíamos de subir

Que estávamos apenas num primeiro patamar de montanha 


Ouvíamos a voz do silêncio 

A noite ia se fazendo mais clara

E anjos acampavam ao redor

Cantando afetuosa e delicadamente as verdades do universo

De como Yeshuah é rei do universo 

E de como o cosmos é só um dossel de uma parte da glória de seu Pai

Que outros mundos celebram a magnitude, a bondade e a clemência de Deus

Que os olhos não podem ver sequer uma simples medida daquilo que é estabelecido nas alturas da imortalidade.

E que toda sorte de beleza emana do sopro terrível de Deus

Que é ao mesmo tempo tão espantosamente potente e mais doce que qualquer doçura que podemos conhecer na vida


Outros patamares de montanha galgamos em poucos e imperceptíveis passos de pessoa.

Já não trilhávamos por razão humana. 

As verdades que nos revelava o mestre nos faziam passar por sobre o tempo

E em convulsivas descargas de êxtase nos encaminhávamos ao cume


Os sentidos nos faltando... 

Apenas borbotões de estremecimentos nas visões maravilhosamente perfeitas

Cores e quadros inexplicáveis 

Histórias que nunca nos contaram

Os mortos que voltaram à vida

Os profetas e as virgens, os alucinados, os mártires e os arrependidos

O céu tomado de assalto na bruma exuberante da criação... 


E então a paz.

A paz perfeita. 

O silêncio novamente.





terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Breve balanço de início de governo e perspectivas




Cinco semanas de governo Lula. Como avaliar a situação política e o novo governo? Impossível analisar sem pontuar que é também a quinta semana pós-governo Bolsonaro, e agora a quarta semana depois da intentona bolsonarista de 8 de janeiro. A tônica do momento é a dura transição de governo, com o mercado financeiro e a imprensa acuando o novo governo para que este não tome nenhuma medida econômica que esteja um pouco fora de seu script neoliberal padrão. O bolsonarismo por sua vez continua empenhado em seu programa de fakenews de whatsapp e mobilização do gado, a fração da população que não largou o Bolsonaro mesmo depois de todos os crimes e que agora não quer aceitar a legitimidade democrática do novo governo instituído. 

Dito isto, é bom frisar que a transição de governo é libertadora pero no mucho. O fim do governo Bolsonaro realmente configura um novo parâmetro civilizatório em terras brasileiras, mas, como dizíamos, são muitos os fatores a determinar a atual conjuntura e a pressionar o novo governo para que este não avance por caminhos mais democrático-populares. O pessoal da imprensa queria a deposição de Bolsonaro, claro, mas continuam muito determinados a não abrir mão do modo Paulo Guedes de gerir a economia nacional. O próprio imperialismo americano não queria mais saber do Bolsonaro, bem como parcelas determinantes da burguesia brasileira. Afinal, Bolsonaro representava perigo para os próprios negócios das elites, e não havia possibilidade de reeleição sem que o país enveredasse por um cenário de desintegração e anomia social. Era necessário que o andar de cima permitisse o retorno de Lula, para que a situação minimamente se normalizasse depois dos quatro anos de desgoverno fascista. 

Em sua primeira semana de governo, Lula revogou diversas medidas do governo anterior, nas questões de armas, meio ambiente, educação, privatizações. E se dispôs a continuar com os 600 reais de auxílio, que agora passa a ser o Programa Bolsa Família. Tem agora toda a mobilização do governo para a resolução da questão yanomami, que foi uma outra demonstração do caráter genocida do bolsonarismo, e que mostra bem a diferença oceânica entre uma gestão de extrema direita e uma gestão normal do reformista Partido dos Trabalhadores. 

Porque a atual gestão, após as primeiras semanas, um pouco mais de um mês após o emblemático discurso de posse do presidente Lula (em que este defendeu programas sociais para o fim da fome e impostos sobre grandes fortunas), começa a revelar que promessa de campanha eleitoral é realmente só um discurso pra sensibilizar as pessoas. Na hora de assumir o governo, ninguém tem peito de mexer no orçamento. Eles vão parando de criticar o teto fiscal, tiram o pé do discurso de rever as reformas trabalhista e previdenciária, etc. 

Tem agora o desentendimento com o Banco Central sobre a taxa de juros em 13,75%, mas muito pouco ou quase nada se fala sobre o aumento real dos salários, por exemplo, ou sobre um choque de recursos em obras públicas, para dinamizar a economia e gerar postos de trabalho. Tem também a questão da Petrobrás ainda estar recheada de elementos bolsonaristas, mas queremos ver se o presidente Lula vai manter a promessa de tirar a política de paridade com o dólar no preço dos combustíveis. 

Tudo bem que são só 40 dias de novo governo, que tem os militares e o mercado fazendo pressão sobre os caras, que a turba bolsonarista continua a representar perigo e que o próprio Bolsonaro ainda tá livre e solto por aí, que o Xandão e o STF, apesar de corretos em pegar os bandidos bolsonaristas, ainda não apontaram para medidas contundentes de responsabilização dos crimes da pandemia e de toda a série de crimes cometidos pela familícia e pelos generais.

Em certa medida seremos obrigados a defender o governo Lula da sanha golpista do mercado e de seus lacaios. Mas não podemos abrir mão de pressionar o governo para que este pelo menos cumpra suas promessas. Nem se trata de exigir do PT o que o partido nunca se propôs a oferecer. Como comunistas, faremos os apontamentos necessários, falaremos das necessidades de escalas móveis de trabalho e salários, defenderemos a estatização de setores estratégicos da economia, exigiremos o fim da fome, com o imposto progressivo e uma política avançada de distribuição de renda, entre outras questões. Mas do governo Lula exigiremos o que este em campanha se comprometeu a entregar, nada menos. 

O Brasil amarga agora uma situação social grave, onde milhões e milhões de pessoas passam fome! A situação é severa. Os índices de criminalidade avançam, de prostituição, drogadição, etc. São amplas massas da população em vulnerabilidade. Famílias desamparadas, proliferação de favelas, crianças em situação precária de vida. E o país tem recursos, não pode haver essa miséria. Tem que ter uma política de desenvolvimento, de cobertura social. Não basta tirar o Bolsonaro. Tem que incluir o cidadão no orçamento, tem que acabar com a fome e o subdesenvolvimento. E tem que ser depressa. Senão volta a direita num próximo governo, senão o povo não aguenta, senão as mudanças serão superficiais e provisórias.



segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Entre identidades e identitarismos

☆ Breve comentário marxista-freire-gramsciano sobre o tema


O que é bom pra mim talvez não seja bom pra fulano, beltrano ou sicrano. O que você considera belo ou justo talvez não seja tão belo e justo na opinião do seu vizinho, colega de trabalho, ou de quem quer que seja. E isso vale pra tudo e é absolutamente natural. Desde pequenos nos habituamos a lidar com o contraditório. E não se trata aqui de advogarmos uma filosofia pós-moderna e relativista. Pelo contrário, trata-se de reconhecermos a legitimidade da opinião divergente, ao passo em que reconhecemos a singularidade da pessoa, suas especificidades materiais, de meio, cultura, suas impressões subjetivas e sua história. E aí poderemos pensar x sobre determinada pessoa ou situação, à medida que outros pensarão y, ou z, e assim sucessivamente, dependendo da complexidade do quadro analisado e de suas possíveis interpretações. O que cabe, e isso é essencial pontuar, é que haja a possibilidade democrática do pensamento, do posicionamento diante de qualquer coisa. Numa sociedade de regime político democrático, há que ser assim. Não há como ser diferente sem que haja uma enorme contradição de termos. Cientificamente, racionalmente, tendo em conta as circunstâncias, o contexto, os diversos fatores condicionantes de um caso, tem-se maiores condições de representá-lo com fidedignidade. Mas em ciências humanas as coisas evidentemente não são matemáticas. Como dizia, há o caráter subjetivo intrínseco a ser ponderado e levado em consideração. 

Um negro pode falar com mais propriedade sobre racismo, por exemplo. Pelo menos sobre suas próprias experiências, que estão longe de serem as experiências de vida das pessoas brancas. Não quer dizer que ele esteja mais certo, ou que só ele possa expressar opinião ou análise sobre o assunto. Longe disso. A questão não é o lugar de fala como balizador epistemológico. A questão é a escuta como um processo humanizador, capaz de despertar a empatia. E não só isso, mas também a busca da materialidade do tema, de uma base empírica sólida na teorização e no exercício de elaboração do tema em sociedade. 

E falo isso com o claro intuito de me deslindar do campo dos que se posicionam pelo identitarismo. Tenho veementemente feito isso ao longo dos últimos anos. 

O identitarismo peca porque coloca como centro a questão da identidade, seja cultural, de raça, gênero ou opção sexual. E isso tem ocorrido muito. É bem característico do espírito do tempo, neoliberal e individualista, anti-marxista e anti-moderno no sentido que se desloca do eixo da estrutura de classes em que está colocado o modo de produção.




Insisto, o que norteia os marxistas é o método da práxis, do pensamento articulado entre a base produtiva e social com o conceito crítico e dialético. Mais objetivamente, falando em termos de identidades, implica em observar com atenção as diversas demandas, advindas das mais diversificadas experiências, tratá-las de maneira ética, dando espaço para que tenham voz na sociedade, progressivamente, nas instituições, meios de comunicação, como sociedade que caminha, paulatinamente, e em meio a uma acirrada disputa hegemônica. Entendendo e possibilitando entender que, como dizia no início, nossos posicionamentos são distintos, nosso lugar no mundo, nossa visão de mundo, enfim, em tudo ou quase tudo existe distinção. E que há de haver, por questão de respeito e de humanidade, uma interlocução sadia. 

Além de outro fato mencionado acima, que pensamos melhor quando pensamos juntos, e que cada caso é um caso, cada experiência traz em si algo de único e inigualável. A sociedade tem que levar isso em conta.

Não será tal predisposição uma carta branca a obscurantismos e similares no convívio social. A menos que se trate de religião ou pensamentos metafísicos de caráter individual e sem relação direta com as questões sociais. Porque cada um é livre para escolher entre as também diversas narrativas a respeito da origem da vida e do sentido do universo. De resto, estamos em sociedade e um bom convívio, harmonioso e sem violência, deverá sempre ser imperativo. Ou seja, desde que não se atente contra os direitos humanos fundamentais, os direitos civis e democráticos dos cidadãos, cada um que pense como bem entende. Um contrato social moderno basilar estimulará este modo de vida. E, no socialismo, superada a dirigência política burguesa, os homens se aprimorarão em uma cogestão democrática da vida.

Por isso é que por agora é imprescindível lutar para que se implementem políticas públicas que garantam acesso à educação inclusiva, que dê aos sujeitos os atributos necessários para o desenvolvimento de um senso ético e comunitário. Freireanamente falando, fazendo aqui honras ao educador brasileiro que extraordinariamente pautou a educação pela via emancipatória, humanística, que tão bem pontuou a necessidade de se garantir aos sujeitos a condição de autonomamente pensar o mundo, e poder assim discordar, criticar, propor quebras de paradigmas, e para o seu lugar propor novas bases. 

Fazemos isso à medida em que nos educamos em sociedade para o convívio com o diferente, para a compreensão da alteridade. Isto é, à medida em que superamos nossos impulsos infantis de intolerância com tudo aquilo que de alguma maneira nos contraria. 

Isso não é nada simples, porque tudo que se move sob os céus é perpassado por relações materiais e de interesse. É um trajeto histórico notável e pertubador, que todavia tem se encaminhado para a progressiva conquista de direitos, muito embora à custa de muita luta, e passando por algumas etapas de retrocessos, como a atual, em que nos batemos contra os capitalistas na luta por direitos trabalhistas básicos, ou por serviços públicos também básicos.

Mas enfim, hoje se sabe bem que as diferentes características das pessoas lhes proporciona experiências que tanto podem ser diferentes das nossas, como que podem ser causa de sofrimento. Não é só a classe social que conta, ok. Da segunda metade do século passado pra cá a sociedade evoluiu muito nesse quesito. Tem sido assim com a questão do negro, com a questão  dos homossexuais, dos indígenas, etc. E cabe observar que essas pessoas, como sujeitos de direito, devem ter suas peculiaridades asseguradas contra qualquer manifestação de preconceito ou violência. É para isso que se tem produzido teoria decolonial, que se tem pensado as especificidades do sul global, para a produção de um conhecimento que tenha horizonte ético e político consolidado, um conhecimento que no limite nos ajudará na maior das conquistas, que será a emancipação deste ciclo de exploração do homem pelo próprio homem. O socialismo virá. Uma hora ele vem.





 





sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O que será da política brasileira nos próximos anos?


Segundo turno, eleição pra presidente em 2014. Vocês se lembram? Dilma estava fazendo um governo ruim. Mas o adversário dela era um playboy safado, que todo mundo sabia que não prestava e que queria assumir a presidência da república pra voltar com um neoliberalismo ainda mais violento do que o projeto que estava em curso. Pois bem, mesmo sendo um elemento altamente suspeito, um picareta de marca maior e com projeto maldoso de governo, aquele cidadão mineiro residente no Rio, um famigerado playboy usuário de droga e agressor da mulher, cínico, hipócrita, mentiroso, dissimulado maldito, teve mais de 48% dos votos, perdendo pra Dilma por uma estreita margem de 3 milhões e meio de votos. 

Notem que a polarização política era classista e muito acirrada. No entanto, não havia movimentação de extrema direita declarada. De 2018 pra cá que a situação tem evoluído neste sentido. 

O meu medo é que agora, nesta eleição de 22, tendo o Brasil passado pela trágica experiência de uma gestão de extrema direita, genocida inclusive, o país se consolide agora num modelo extremamente semelhante ao regime político norte-americano, com uma oposição de praticamente duas correntes políticas apenas: uma de extrema direita, e uma de centro-direita. Sim, o Partido Republicano é de extrema direita e o Partido Democrata é de uma direita mais amena. Aí a esquerda americana precisa toda eleição declarar voto útil no menos pior, pra não ver os malucos republicanos voltando ou permanecendo na Casa Branca.

E o meu medo é justamente porque mesmo o pior governo da nossa história tem tudo pra chegar agora nesse marco dos 48%, que o desgraçado direitista do Aécio já chegou 8 anos atrás. É uma loucura, mas é Brasil, é o regime político dos ricos, onde eles tem uma série de fatores pra manipular o eleitorado e pra mexer ideologicamente com a cabeça da população. 

Então o que seria uma polarização esquerda x direita se encaminha pra polarização extrema direita x centro-direita, ou centro. De esquerda não vai ser. O Lula vai governar acuado pelo sistema, com a sombra do Alckmin, do mercado, do centrão, do imperialismo, etc. Tomara que ele não ceda pras privatizações. Se estancar a sangria das privatizações, já está ótimo. 

Mas e o que será do bolsonarismo, este fenômeno neofascista assustador que deixaram se gestar no Brasil? O Xandão vai colocar o genocida atrás das grades? O STF vai pegar as maracutaias da milícia? Não sabemos. Se sim, aí o movimento reduzirá bastante, dando ensejo para uma nova conformação do bloco direitista. Se não, aí a coisa se consolida nessa polarização muito semelhante à americana. 

E isso seria extremamente deletério para o Brasil. 

Temos também que ver como vai evoluir a direção política pós Lula. O homem já disse que não será candidato à reeleição em 26. Outra liderança surgirá. Muito provavelmente uma sucessão encaminhada pelo próprio Lula. Sem corrida política pelas bases dos partidos, o que também é sinal da apatia nos movimentos sociais e na esquerda como um todo. 

Ou seja, os prognósticos para o próximo período são ruins. Não existe a curto e médio prazo a expectativa de uma movimentação política em direção a um projeto emancipatório ou pelo menos de desenvolvimento nacional. 

Alguém poderá dizer: Ah, mas, Mário, o Lula vai apontar pra isso, com o Lula o Brasil vai ser gigante, se industrializar e tal. Creio que é muita dose de otimismo pensar assim. As coisas aqui são extremamente complexas, geoestrategicamente falando, das correlações de força entre classes, dos interesses econômicos em jogo, da ausência de uma direção política operária, da própria natureza política do PT, inclinada à conciliação, disposta a encurtar o programa pra contar com o consentimento do andar de cima. Enfim, o cenário é de disputa contra a extrema direita, pelo mínimo de dignidade e por um regime que se mantenha democrático apesar do tempo da economia ser um tempo de profundos ataques aos trabalhadores. Não temos horizontes políticos de emancipação. Não nos tem sido permitido um imaginário político revolucionário. Isso é sintomático nas juventudes, observem. Os jovens ou estão circunscritos às ideologias identitárias e movimentistas, com coletivos disso e daquilo, que não se entendem como classe trabalhadora que aspira ao poder político; ou estão por aí atrás de algum consolo existencial ancorado na forma mercadoria. 

São tempos tenebrosos pra nação.








sexta-feira, 7 de outubro de 2022

O pensamento político de Maquiavel

(Que seu professor de história no ensino médio provavelmente não te falou).



Tido como o criador das ciências políticas, Maquiavel é um pensador da Renascença que antecipa pontos importantíssimos que seriam depois trabalhados por teóricos do quilate de Hobbes e Marx. A questão do contrato social, que seria trabalhada no século seguinte por Hobbes, Locke e Rousseau, e a questão da luta de classes, que seria super-elaborada por Marx no século 19, são questões determinantes do pensamento político maquiavelino. Apesar de ter entrado para a história com o sinônimo maquiavélico, que significa o desejo despudorado e antiético pelo poder político, Maquiavel tinha um pensamento bastante democrático e inclusivo. Prova disso são seus principais escritos: O Príncipe e Discurso para a primeira década de Tito Lívio. 

Ao longo de sua obra O Príncipe, o autor se dispõe a traçar os modos como um governante pode permanecer no poder. E estrutura sua escrita recorrendo a exemplos históricos, e colocando de modo pragmático quais seriam as astúcias e artimanhas de um homem disposto ao poder político. Mas não por isso Maquiavel prescinde de considerações morais e éticas. Com efeito, ao longo do texto lastima os exemplos tirânicos e faz questão de elogiar os governantes humanistas. 

Para entender Maquiavel é necessário compreender o homem do renascimento. Maquiavel era um moderno, que vinha de um rompimento com o mundo medieval e suas concepções teocêntricas de mundo e sociedade. Para Maquiavel importavam os valores de nobreza, hombridade, virtude, etc, mas era necessária também uma análise fria da política. E política são interesses em jogo. Os homens se unem em sociedade por interesse de auto-preservação, optam pela vida coletiva para fugirem de eventuais violências, mas precisam determinar para essa sociedade um código que resguarde internamente seus cidadãos, para que o convívio seja minimamente harmonioso e para que a vida siga funcional para todos. O homem para Maquiavel não é um ser naturalmente bom, mas um sujeito de interesses, e que em busca de seus interesses fará o mal. Cabe então que a sociedade civil se conforme politicamente para precaver a tirania e o despotismo, a violência e a injustiça. 

Há modos variados de se chegar a isso, distintos regimes políticos que podem ser empreendidos, mas que em suma precisam nascer de um pacto que se arranjará pela política. E a política é potência, o direito é potência, como diria o filósofo Espinosa.  Esse conceito é determinante em Maquiavel. As forças políticas em jogo se arranjarão de modo a estabelecer esse poder político no qual a sociedade encontrará seu funcionamento. 

Os grandes da sociedade naturalmente vão querer impor seus desejos, ao que o povo fará objeção, porque há os que querem oprimir e do mesmo modo há os que não querem ser oprimidos. E haverá então um mecanismo de contrapesos. Contra os interesses dos poderosos, haverá a contramola que resiste. A sociedade é imersa em interesses, em interesses materiais. O rico desejará acumular, e o pobre lutará por não passar fome. O poderoso tentará permanecer no poder e usufruir deste poder, e o povo fará o possível para não se ver ultrajado e explorado. 

Se o governante for sábio, se for arguto e perspicaz, tratará o povo de forma benéfica, de modo a não ceder ensejo para ocasiões de descontentamento e rebelião. Como diz em O Príncipe, o governante pode se impor pela força, mas é preferível que seja amado. 

E deste modo a astúcia do governante será provada por uma constituição civil que estabeleça um saudável equilíbrio entre as forças políticas, entre os grandes e o povo. A participação do povo na política será importante para que este tenha seu espaço e encontre soluções para suas demandas, de modo que não se verá excluído, mas partícipe, e que não tentará por outras vias fazer cumprir o seu direito. A lei então tratará de consolidar uma sociedade harmoniosa, onde os grandes serão impedidos de usurpar o povo, e este, conciliado com as frações poderosas por meio de um entendimento político, permanecerá pacífico.

Poderá haver tensionamentos políticos nas altas esferas do poder, com conspirações palacianas e tentativas de golpe, mas que sempre encontrarão no povo resistência, pois que este batalhará por seu governante. 

De tudo isso, depreendemos que o pensamento político de Maquiavel é bastante democrático, e suas concepções e análises  são bastante avançadas para sua época. A análise de base material, apesar dos laivos moralizantes e de resquícios supersticiosos do pensamento, é a análise realista de antagonismos sociais postos, que, como Marx assinalará depois, é histórica e dialética. A história da sociedade é a uma história de luta de classes. E o que determina o poder político é a força. 

Para os homens do tempo de Maquiavel, a fortuna era elemento significativo das narrativas e do entendimento. Bem como a virtú. Ao longo de seus textos vamos nos batendo com essas concepções de boa ou má sorte, de auspiciosidades, ou de considerações que podem parecer muito moralistas, mas tais concepções ladeiam uma concepção de teoria da política muito progressiva para o seu tempo, que é eminentemente material e realista, pragmática e de aspiração democrática.




* Fortuna: sorte ou azar, o destino e suas vicissitudes. 

* Virtú: virtude, mérito de um pensamento perspicaz e sábio. 





quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Cuba e o Cameraman


Ontem tava procurando coisas interessantes na Netflix e me deparei com esse filme. De 2017. Desconhecia sua existência. Peguei pra ver e achei realmente muito bom. 

É um documentário realizado por um jornalista norte-americano, Jon Alpert, que começa a viajar pra Cuba aos vinte e poucos anos, em 1975. Ao longo dos anos ele volta à ilha muitas vezes e visita as mesmas pessoas, pra saber como elas estão. E nisso vai fazendo amizades. Por mais de 40 anos Alpert acompanha essas pessoas, uma delas o comandante Fidel Castro, com quem Alpert estabelece também uma bonita relação de amizade.

É um filme muito bonito, muito comovente. Além de tratar do desenvolvimento da situação política no país, claro, ao longo de praticamente todos os períodos da revolução cubana, o filme tem esse olhar sobre o tempo, o envelhecimento dos personagens, suas dores, suas dificuldades, seus altos e baixos, em excelentes ensejos para a reflexão existencial.

Cuba e o Cameraman é um elogio ao magnífico povo cubano, ao seu espírito revolucionário, de soberania e de grandeza. Um povo que soube contornar os momentos mais graves e assustadores de um embargo econômico permanente, um embargo criminoso e extremamente vil. Com o fim da União Soviética, na década de 90, este povo precisou se reinventar e se sustentar com o turismo, sem abandonar a revolucionária e gloriosa trajetória de insubmissão ao monstro imperialista americano. 

Praticamente todos os personagens do filme expressam essa grandeza moral, essa disposição para a luta e para a autodeterminação cubana. São personagens que expressam a simpatia e a alegria de seu povo, sua força e sua humanidade. 

Os personagens mais emblemáticos são três irmãos velhinhos que trabalham como camponeses. De uma energia absolutamente impressionante. O retrato perfeito da simpatia cubana e da resistência de seu povo. Além de Fidel, claro, um homem que a câmera de Alpert revela ser muito mais que o carismático líder político e cérebro da revolução. Fidel se revela cordial e sensível. Um homem verdadeiramente admirável e por quem o jornalista genuinamente se afeiçoa.

Uma das cenas mais bonitas do documentário é o jornalista carinhosamente beijando a testa de Fidel já velhinho, poucos meses antes de sua morte. 

Recomendo bastante esse filme. Não percam. É o tipo de filme que não podemos deixar de conferir. Uma pérola. Uma história imperdível da grandeza da revolução cubana e de seus personagens, sejam figuras públicas ou anônimos homens do povo.

Viva a revolução cubana!

O sentido da vida é se insurgir contra as injustiças do mundo.