sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Uma semana de contradições. Um país recheado delas


Essa semana eu estava conversando com uma conhecida que trabalha no Mackenzie e fiquei sabendo que lá tem intervalo separado pra bolsistas. Impressionante! Eu já sabia que a coisa lá é pesada pra bolsistas e cotistas, mas não imaginava que o preconceito chegava a tomar tamanho vulto de segregação institucionalizada.

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Aí o pessoal fala da contradição do preconceito numa instituição confessional, que se reivindica cristã. Essa conhecida mesma comentou nestes termos, dizendo ser gritante o racismo e que o constrangimento é inevitável para quem vê de perto, que inclusive as crianças do colégio transparecem o incômodo com as classes baixas que frequentam o espaço. Pouco cristã essa turma, né?! Mas o Mackenzie sempre foi conhecido pelo elitismo, e o moralismo lá sempre foi de rasgada hipocrisia. Lembrei a minha interlocutora que na época da ditadura o Mackenzie foi um dos celeiros do comando de caça aos comunistas, que ali morreu um estudante na famosa batalha da Maria Antônia, quando estudantes progressistas da USP foram às vias de fato com reacionários que provocavam de dentro dos muros calvinistas. Quer dizer, o ranço conservador-reacionário-elitista-racista é coisa antiga, batida e rebatida.

Gente que estudou lá conta que trocar beijos nos corredores, por exemplo, pode render aos casais repreensão dos seguranças; ou que se o sujeito não estiver bem vestido, periga de ser olhado torto por almofadinhas; ou que nas portas dos banheiros os fascistoides escrevem mensagens com conteúdos de ódio às minorias, entre outras situações similares.

Essa semana eu assisti Machuca, um filme chileno muito bom que me fez lembrar do relato sobre as dependências mackenzistas, mas que me fez pensar  muito mais no Brasil como um todo. Machuca retrata o período do governo Allende em que a polarização política entre esquerda e direita ganhava contornos preocupantes, com o governo socialista sendo fustigado pelo imperialismo que forjava crises de desabastecimento e manifestações elitistas e chauvinistas nas ruas.

Resultado de imagem para Machuca, filme. imagensO filme fala de um menino pobre, morador de uma ocupação, que é admitido em um tradicional colégio de padres frequentado por filhos da elite. O filme mostra bem, através dos pais dos alunos e das próprias crianças, o clima de rivalidade política e intolerância de classe, em momentos nos quais as acusações nos remetem ao Brasil de hoje, quando, por exemplo, os que pregam o diálogo e a interação são tachados de comunistas, marxistas; ou quando as madames paneleiras despejam seu ódio de classe contra as mulheres trabalhadoras.

Importante frisar que o filme retrata o período do golpe pinochetista bancado pelo imperialismo, que implantou um mirabolante plano de privatizações pró-EUA e que em sua sanha repressiva torturou e executou milhares de pessoas. Foi assim que terminou a história que hoje nos faz lembrar da Venezuela pela situação de dura perseguição do imperialismo, quando este ameaça intervir diretamente em mais um golpe de estado; ou que nos lembra o Brasil da polarização ideológica entre raivosos e ressentidos coxinhas de um lado e o movimento social sendo espremido de outro, prestes a presenciar um cenário de ainda maiores ataques do aparato repressivo do estado ao conjunto da população.

Hoje acordamos com a notícia da intervenção militar no Rio, outro prenúncio de que as coisas não vão bem, mais um movimento na escalada golpista.

O Brasil regride terrivelmente. Ou será que o Brasil nunca evoluiu de fato? O desfile da Tuiuti na Sapucaí é uma boa resposta. Um modo bem brasileiro de expor a percepção popular.
Mas até o carnaval os coxinhas levaram. Sinal que o monopólio global e a força da indústria cultural são barreiras a serem derrubadas pela massa. Importante estar atento ao viés ideológico, pra não se deixar tragar pelo discurso manipulador da elite que deseja ver a gente pelas costas.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Final melancólico

                       

Nada irá alterar o processo de decadência do PT. Teria que haver vontade política para isso. Mas o PT optou por outra via. Conciliação de classes, adaptação ao modo parlamentar-burguês de fazer política, degeneração programática, traição aos ideais de fundação do partido...Em tudo isso o PT incorreu. Encarou o golpe com um pacifismo de dar nos nervos de quem acompanhou o transcorrer da injustiça.

O que esperar agora? Que o PT faça o completo oposto do que fez até o momento? Não existe milagre em política. O processo está dado; resta aguardar o desfecho final. A depender da burocracia que ocupa o birô petista, o desfecho será melancólico. Sem resistência, sem sangue, sem quebra da ordem, sem povo na rua.

Trata-se do absoluto colapso da social-democracia tupiniquim, que tornou-se governo social-liberal, aliada de determinados setores da economia que nunca almejaram um real processo de desenvolvimento nacional, porque queriam lucro sem projeto político algum, bem como a cúpula petista não tinha projeto de transformação mas de poder. Deu no que deu. Passado o tempo, perderam a funcionalidade para o regime e foram proscritos. E proscritos continuam a ser ao passo em que fazem de tudo para costurar acordo que lhes permita continuar figurando entre as correntes políticas aceitas no métier golpista.

Em suma, um final melancólico, mas um final previsível. As condições econômicas do pós-crise, com queda na lucratividade da banca e o subsequente direcionamento para uma política macroeconômica de ajustes fiscais e enxugamento de gastos públicos, colocaram o PT à margem da viabilidade política atual, apesar do esforço do partido em se adequar. Isso porque o capitalismo em crise não permite conciliação alguma. O imperialismo quer o que de mais pró-imperialista tiver às mãos. E são mal-agradecidos os multi-bilionários que mandam no mundo.  Vão prender o Lula.

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Por uma vida sem tarifas

Uma visão marxista da luta pelo transporte                      

As tarifas do transporte público na grande São Paulo passaram de R$ 3,80 para R$ 4 no início do ano. O aumento vale para ônibus, metrô e trens da CPTM. Tem monotrilho também. Mas uma linha pequena. Quase todo ano tem reajuste de tarifas. O prefeito Dória, em campanha eleitoral, havia prometido não reajustar a tarifa ao longo de sua gestão. Descumpriu a promessa e disse que foi mal-entendido.
O fato é que a tarifa subiu para o absurdo patamar de R$ 4. Um preço alto em vista do serviço, que deixa bastante a desejar, mas um preço alto também em vista da baixa renda de boa parte da população. Temos que levar em consideração os aumentos nas passagens intermunicipais. Por exemplo. Uma passagem do metrô Armênia para o Pimentas, bairro operário da periferia de Guarulhos, não sai por menos de R$ 6. Daqui a pouco estará em 7. Nos municípios vizinhos a São Paulo, conurbados, que conformam a Grande São Paulo e que são municípios dormitórios, ou que apesar de sua autonomia econômica transportam milhares de cidadãos a São Paulo todos os dias, como Osasco, Cotia, Guarulhos, Arujá, etc, o preço da tarifa pesa no orçamento das famílias e muitas vezes serve como impedimento ao livre trânsito das pessoas. O direito de ir e vir não é lá muita coisa se o cidadão sequer tem condições de pagar para usar o transporte público. A limitação financeira acaba implicando em limitações geográficas, em prejuízo do acesso a outros serviços públicos inclusive.
Mas isso todo mundo já conhece. Bem como aos movimentos contra tais aumentos. O movimento Passe Livre de São Paulo já é consideravelmente conhecido e até alcançou maior projeção política depois das manifestações de 2013, que estouraram justamente após uma violentíssima repressão da PM ao ato dos estudantes. Antes dessa projeção, circunstancial, por conta da repercussão da violência policial, o movimento já fazia bastante barulho havia mais ou menos uma década. Grandes mobilizações haviam sido deflagradas em importantes capitais do país, como Florianópolis e Salvador. E quase todos os anos o movimento ressurgia em São Paulo, aglutinando movimento estudantil, partidário, da juventude anarquista, entre outros setores similares.
Como o anúncio do reajuste vinha sempre na virada do ano, em meados de Janeiro o movimento despontava, durava algumas semanas e ia arrefecendo até parar. Os frutos da organização política do movimento nunca foram muito além disso. Era, desde o início, um movimento que pregava a horizontalidade e que rechaçava partidos políticos, pois era, também desde o início, um movimento hegemonizado por coletivos de militantes anarquistas. Os partidos tentavam atuar mas eram deliberadamente colocados pra escanteio. Muitas vezes a atuação partidária era pelega e extremamente tímida, é bom frisar, contrastando com o caráter rebelde da juventude envolvida. Por esses motivos, o movimento não evoluiu para algo mais politizado e amplo. Ganhou projeção, se tornou um movimento tradicional da virada do ano, entre secundaristas sobretudo, mas ficou circunscrito a estes estreitos limites.
A impressão que dá, olhando em perspectiva, analisando esse período de quase duas décadas, é de que o movimento parou no tempo. No último ano, com a dura conjuntura do golpe, cansamos de ver reajustes tarifários. 2017 foi o ano do tarifaço. Aumentou o gás de cozinha, a eletricidade, a gasolina, etc. Os órgãos do governo anunciaram números de um cenário de deflação. Números esses que começam a ser contestados como manobra política. Quem vai dar credibilidade a tais números anunciados por um governo bandido a serviço de rifar o patrimônio público? Só acreditando na Rede Globo pra comprar essa farsa. Nas ruas, a miséria é dura realidade a ser constatada. O poder de compra da população está super reduzido e os tarifaços estão aí pra cortar na carne.
O preço do ônibus é um problema sério, mas está longe de ser a prioridade da classe trabalhadora. O trabalhador quer emprego, salário decente, quer sair das dívidas, quer acesso a serviços públicos de qualidade na saúde, na educação, no lazer. Tudo isso passa pelo transporte, mas vai muito mais além. E isso não foi bem assimilado pelo movimento do passe livre, por conta mesmo da sua base social. Os movimentos são reflexos de sua base material; são determinados pelas condições ideológicas de quem nele se insere e posteriormente o dirige. Um movimento de estudantes, sem trabalhadores organizados, sem uma linha política bem definida, sem estratégia, não é e nem pode ser um movimento apto a centralizar e dirigir as lutas.
Nesse sentido, chegamos à conclusão que a crise do movimento é também a crise de uma geração que não evoluiu para concepções orgânicas e revolucionárias de atuação política. O que é compreensível na medida em que constatamos os terríveis ataques da burguesia a essa geração. Uma geração que não tem emprego, na informalidade, que não é sindicalizada, oprimida pelo discurso do fim da história, caindo no niilismo de que não há mais alternativas, sendo cooptada pelos fetiches ideológicos da pós-modernidade, etc.
Só o partido operário e revolucionário, partido leninista, de quadros disciplinados e devotados à causa dos trabalhadores, poderá dar solução à crise de direção e guiar a classe para o triunfo. Parece difícil criar esse organismo. Mas só assim andaremos livremente por aí, sem o cerceamento econômico desse capitalismo apodrecido, sem o peso da desigualdade social. Lá adiante não teremos máfia dos transportes.

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O Tacão de Ferro

O Tacão de Ferro, de Jack London, é um livro que impressiona. Muito bom realmente. Trata-se de um romance, uma espécie de ficção sociológica em que o autor se vale do gênero literário para expor conceitos do marxismo e defender a tese de que nenhuma ilusão pacifista ou reformista seria capaz de impedir que o capitalismo enveredasse por regimes de violência em seus períodos de crise. E Jack London faz isso com maestria, prognosticando o socialismo reformista do início do século XX como falsa alternativa aos trabalhadores e prevendo o surgimento do fascismo como módulo político funcional às elites.

O Tacão de Ferro é uma expressão criada pelo autor para designar esse endurecimento do regime político. Trata-se da história de Ernest Everhard (o nome não é a toa), operário intelectual, líder do partido socialista, e posteriormente eleito deputado, que faz amizade com um professor universitário progressista e acaba por se envolver com sua filha, que por sua vez adere aos ideais de seu amado e escreve o livro como modo de reconhecer e engrandecer o trabalho de Everhard. É um livro escrito na primeira pessoa, com notas de rodapé de um editor do futuro, que escreve setecentos anos depois dos acontecimentos relatados no manuscrito. É um livro instigante, violento sobretudo da metade até o final, assumindo ares de distopia, mas que antecipa e prevê muito do que realmente aconteceria no trágico século XX.

O Tacão de Ferro foi publicado em 1907, tido à época como pessimista, acabou por se revelar uma profecia acertada do que viria a ser o sistema capitalista das décadas posteriores. O livro tem erros; na edição da Boitempo, com tradução de Afonso Teixeira Filho, há um posfácio de Trotsky no qual o mesmo reconhece haver erros, mas é de fato um clássico da literatura e merece ser propagado, tanto por sua riqueza estilística quanto pela tese extremamente atual da agonia do capitalismo como modo de produção caduco e fadado à barbárie.

O livro é extremamente atual porque aponta para o regime de barbárie social e violência política do imperialismo e porque coloca a questão da burocracia sindical como elemento importante do status quo; uma casta à parte é formada, dando origem a uma aristocracia operária, traidora, odiada pelos trabalhadores. O que tem tudo a ver com o peleguismo chapa branca do qual temos insistentemente falado como sendo um dos elos podres do regime político a ser ultrapassado pelo conjunto dos trabalhadores.

Outra característica interessante da obra é a hipérbole como elemento de narrativa, o que fez London chegar ao extremo de descrever essa aristocracia operária como elemento completamente apartado da massa de trabalhadores, vivendo em bairros separados, com escolas específicas para seus filhos, etc. De igual modo London hiperboliza o quadro social do lumpem-proletariado, chamado no livro de "povo do abismo", uma massa de miseráveis, extremamente violenta e ignorante, também apartada do convívio comum e que tinha sua funcionalidade social: barbarizar e servir de massa de manobra aos interesses do Tacão de Ferro.



quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O jovem Marx

Sobre o filme

Jovem Marx é também a história do jovem Engels; e a história de uma das parcerias mais significativas que a História já viu. Não dá pra considerar a obra de Marx sem levar em conta a contribuição de Engels. Não só pela amizade e contribuição material do burguês-industrial Engels ao amigo, o que liberou Marx para se dedicar à redação de sua obra, mas pela própria contribuição teórica.

O filme mostra isso na cena em que Engels recomenda a Marx a leitura e a análise dos economistas ingleses, logo após declarar que Marx era um gênio e em contrapartida ouvir do amigo que seu livro "A situação da classe trabalhadora na Inglaterra" era um excelente trabalho.

O filme cai em alguns clichês, típicos do gênero cinematográfico, como no enfoque às vidas amorosas de seus protagonistas, ou como nas cenas em que o espirituoso Marx se envolve em confusões que são transmitidas como burlescas ou cômicas. Isso é de costume nos filmes; mas o diretor foi competente na gravação e o roteiro traça bem o perfil sócio-histórico da época, bem como as influências políticas e filosóficas que fizeram com que Marx e Engels trilhassem o caminho do materialismo-dialético, juntando-se à vanguarda do movimento operário europeu e se dedicando à elaboração científica, a sistematização teórica da doutrina comunista; superando concepções idealistas comuns ao jovem movimento dos trabalhadores, à época muito influenciado pelo socialismo utópico e pela direção anarquista.

O filme retrata bem o aguçadíssimo espírito crítico de Marx, e sua capacidade de esmiuçar dialeticamente os dados a sua disposição. Marx foi um gigante, é um gigante. Sua contribuição só vê a sombra de um outro grande gênio e revolucionário: Vladmir Ilich Lenin. Fica a dica para um filme desse outro grande mestre do proletariado. Um dia desses surgiu um papo de que o DiCaprio interpretaria o velho bolchevique.

Outra coisa que merece nota é a cena final, dos créditos, com uma inusitada trilha sonora de Bob Dylan e uma sequência de imagens da história do século XX até a atualidade, com colapsos econômicos, guerras, revoluções, contra-revoluções, manifestações, eleições.
O que Marx previu, as instabilidades advindas das contradições inerentes ao movimento do capital, continuam dando o tom do curso histórico, e só serão superadas pelo comunismo. Como o filme faz questão de mostrar Marx falando: nada é definitivo nesse mundo, tudo está em constante movimento, do escravismo ao feudalismo, do feudalismo ao capitalismo, e este não é o fim da história, mas uma etapa que já começa a ser superada porque não é capaz de solucionar os impasses que ele mesmo criou. Leiam O Capital. Marx continua a ser a chave para entender nossa sociedade e pensar uma alternativa à barbárie.

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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Em cima do guarda-chuva tem a chuva

Fez história no Mato Grosso há uns 100 anos atrás. Era tido como sujeito contraditório. Prezava pela modernização de sua fazenda, mas era extremamente conservador quanto aos hábitos da vida coletiva na cidadezinha. Tentou a vida pública, tinha pretensões políticas. Gostava de ser notado na vida social do lugar, era pernóstico, gostava de atrair toda atenção para si. Demorou a casar, queria a moça mais vistosa do lugarejo. E disputou-a com meia dúzia de pretendentes, todos eles filhos da elite local, dos senhores de fazenda, coronéis.
Ao cabo de uma boa peleja, como era corrente na língua dos matutos, desposou a jovem, filha única de pais comerciantes. Os velhos negociaram caro a mão da menina. O tino pro negócio fez arrancarem ao Matias uma pequena fortuna, suficiente para morrerem ricos e terem os restos depositados em bela capela de mármore branco, entre palmeiras e mortos ilustres da redondeza.
Matias via sua pequena fortuna voltar com juros e correções no nome da esposa, uma dona de meia idade capaz de atrair a lascívia de jovens, velhos, padres, quem a notasse.
E foi assim, ostentando a mulher mais desejada e tentando se projetar como político, que passou da condição de inusitada figura menor ao posto de lendária personagem local. Queria porque queria ver aprovado projeto seu de erigir um par de torres de 40 metros na igreja da matriz, já havia proposto um recolhimento compulsório afim de criar uma escola de oficiais; dizia acreditar no progresso do município, exaltava energicamente as qualidades morais dos sertanejos.
Não havia logrado êxito em nenhum empreendimento, com exceção do próprio casamento. Não contava com a simpatia das gentes. Tinha de se contentar com uma inexpressiva claque composta de poucos parentes e compadres. Até que por um novo capricho caiu definitivamente na boca do povo.
Foi quando tentou convencer os vereadores a criar um projeto de lei que proibisse os guarda-chuvas. E foi extremamente diligente na tarefa a que se propôs. Redigiu manifesto, coletou assinaturas, proferiu discurso de 50 minutos na tribuna da câmara. Moveu céus e terra para convencer a quem pudesse de que sua tese era acertada. Argumentava calorosamente sobre o absurdo de portar guarda-chuvas, ainda mais naquela sedenta terra em que viviam. O guarda-chuva era um desaforo à natureza benfazeja que proporcionava o refrigério à terra e a seus habitantes, o guarda-chuva era antinatural, objeto estranho a interpor o ciclo da vida dos corpos daqueles que o empunhavam, um sacrilégio! Tomassem chuva sobre suas cabeças e saberiam o que estavam perdendo, o contato íntimo com um dos fenômenos da natureza mais indispensáveis ao ciclo do desenvolvimento humano.
- A modernidade tem limites!, esbravejava. Aumentava o tom, vociferava, os olhos vermelhos de ira: - Não sejam renegados, os senhores estão a injustiçar a dádiva do Altíssimo, que do céu lhes envia o líquido da vida!
Começou a ficar impopular. Não que antes fosse popular, mas começava a atrair inimizades. Antes era apenas um fanfarrão a despertar inveja aos demais pela mulher que tinha. Passou a ser evitado, encarado como sujeito impertinente e maçante.
Caiu no ostracismo, relegado ao papel de lunático, motivo de piada, reduzido a objeto do escárnio de toda uma região. Acabrunhou-se por uns dias, forçando-se à tarefas da fazenda, porém sem ânimo, deprimido.
Optou por retirar-se uns dias. Embrenhou-se na mata para caçar, montou acampamento ao pé de um ribeirão. Contemplava o céu estrelado do sertão, lembrava da meninice. Sentiu-se aliviado da tensão lá pelo décimo dia de retiro. Tomou caminho de volta. Veria a mulher, faria amor, tomaria uns tragos da cachaça predileta. As coisas iriam melhorar. Chegou na casa da fazenda e surpreendeu a mulher em ardente felação a um jagunço.
Abafaram o caso com uma viagem, depois de uma conversa com o empregado. A história dos guarda-chuvas já havia sido suficientemente desgastante.

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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Nunca gostei de trabalhar / Encarando o desajuste

            "Do suor de teu rosto comerás o teu pão"
             Gênesis 3, 19

Quando eu tô deprimido, escrevo menos. E escrever menos não é interessante pra mim, haja visto que mantenho esse blog. Ou seja, depressão atrasa bastante o meu lado. Até porque o blog tem poucas visualizações; e se eu posto menos conteúdo, as visualizações caem ainda mais. E aí eu fico deprimido. É um círculo maldito.
Então, pra tentar matar dois coelhos em uma cajadada só, pensei: Bom, vou escrever sobre depressão. Mas depressão implica muita coisa. E outra, depressão pode ter várias causas. Então vou falar de mim. Eu sou narcisista o bastante pra fazer isso sem me preocupar muito.
A depressão no meu caso chegou há uns quatro anos e meio. Depois de uma crise de abstinência de rivotril. Tomei o tarja preta por sete anos. Isso mesmo. Sete longos anos. Rivotril é uma delícia. Comecei a tomar por conta de uma síndrome de pânico que me acompanha desde os 17. Pois então, fui tentar parar com o rivotril e dei uma surtada. O que era pânico virou pânico e depressão, muita ansiedade, pensamentos suicidas, etc. Mudaram meu diagnóstico pro cid F-41, transtorno misto de ansiedade e depressão. Por esses dias fui pegar um encaminhamento pra ser atendido mais perto de casa e observei no prontuário que o último psiquiatra que tinha me visto resolveu alterar o cid; colocou F-39, transtorno de humor.
Mas enfim, o fato é que sou um transtornado. Não que isso faça muita diferença. Meio mundo é, muita gente já surtou, outros tantos estão surtando e muitos outros irão surtar. O surto é parte integrante da contemporaneidade e a gente vai empurrando com a barriga, antidepressivos ( também podem ser ansíoliticos, reguladores de humor, benzodiazepínicos, anti-psicóticos nos casos mais graves, etc ) e sessões de análise. A impressão que eu tenho, e eu julgo que minha impressão faz muito sentido, é que nada disso realmente resolve.
Tomo antidepressivos há mais de 15 anos, faço análise há quase cinco; cheguei à conclusão, empírica mesmo, com conhecimento de causa, de que os sintomas só melhoram mesmo quando a vida melhora, as condições materiais da vida, o conforto material, o nível de sossego, essas coisas.
Eu falei mais ou menos o seguinte há uns meses atrás: não dá pra entender esse mundo em que a gente vive sem ler Marx e Freud. Mas nessa sequência, primeiro leiam o Marx e depois o Freud. O materialismo dialético é insuperável. Porque são as coisas materiais que determinam tudo nesse mundo.
Mas, voltando ao tema, e justificando o desvio, chego aqui ao que julgo ser o motivo da minha depressão. Sem desconsiderar eventuais fatores endógenos, características de personalidade, tendências atuais. Mas o motivo de fundo, aquilo que entendo ser determinante no meu quadro, julgo ser a debilidade material.
Minha analista diz que eu não me implico enquanto sujeito. Ela deve ter razão. Eu sou um cara acomodado. Reconheço. Isso me faz depender materialmente da minha família. Acontece que minha família é pobre. E eu não consigo viver sem vez ou outra me ver em condições materiais precárias, o que me deixa chateado, apreensivo, preocupado, e, por consequência, deprimido. Ou seja, se o leitor acompanhou o encadeamento lógico, concluirá comigo: esse cara é depressivo de pobre que é. Pode haver um elemento ou outro a ser considerado como agravante, mas a pobreza, a miséria material por assim dizer, é que explica tal desarranjo existencial.
Talvez algum interlocutor objetasse: Não seria a preguiça?! Sim, concluiria, o Mário é pobre porque não trabalha, e não trabalha porque é preguiçoso, é um indolente inveterado. Seria uma outra forma de encarar a questão, uma forma mais ideológica, certamente.
A gente vive num mundo de gritante utilitarismo. A ideologia do momento é a tal da meritocracia. Desde a literatura de auto-ajuda até os manuais que regem o meio corporativo, a idéia mais batida é a de que o sujeito pra ser bem sucedido tem que ser produtivo, determinado, abnegado. Tem o tal do "foco". Nunca se usou tanto esse termo como agora. Sobrevive ao ambiente empresarial quem é forjado em metas, quem subsiste apesar das adversidades e crueldades do mercado de trabalho. Eu, como nunca me adaptei em tal estrutura, me vejo dissituado, tendo que me ver com a contradição de ser improdutivo num mundo em que os improdutivos não servem. E tenho que me ver com a contradição de não estar apto ao consumo num mundo de consumismo.
Não é o fim do mundo. Desajustados existem aos montes por aí. Mas como ser desajustado sem sofrer? Dá pra ser desajustado sem ser excluído? Dá pra ser desajustado sem sofrer preconceito? Dá pra ser desajustado sem ser estigmatizado? No limite, tendo em consideração o modo de produção no qual estamos inseridos, com todas as contradições que o mesmo implica, daria pra ser desajustado sem ser depressivo? O mal estar na civilização já está dado. Que dirá o mal estar dos que ousaram não se adequar ao sistema!

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