domingo, 27 de maio de 2018

Hospício é deus / A vida é uma pancada

Um dia desses eu estava de passagem num movimentado prédio na Paulista em visita a uma repartição pública, pra ficar a par de um dos processos que acumulei com a militância no movimento estudantil. No hall de entrada do edifício me deparo com essas estantes de livros usados que o pessoal disponibiliza pros transeuntes. Fissurado em livro que sou, me detenho ali uma meia hora pra "garimpar" alguma leitura em meio a uma porção de livros não muito interessantes.
Resultado de imagem para maura lopes cançadoPego um, pego outro, abro, folheio, fecho. Enxugo o suor do rosto, faz uma tarde quente em São Paulo. De repente me deparo com um título muito incomum, incomum demais: Hospício é deus. O título me intriga. Que porra é essa, livro espírita? O pessoal deveria parar de deixar livros espíritas pra circulação. O livro é de capa dura, uma capa muito simples, sem descrição alguma na contracapa. Mas afinal, que porra é essa?! Abro o livro e vejo uma citação do Sartre na primeira folha. Puxa, os espíritas agora deram pra citar Sartre! Pessoal invocado a sofisticado. Enxugo mais uma gota de suor que escorre pela testa. Estou cansado, as pernas ameaçam com uma inconveniente cãibra. Pego o livro e enfio na mochila. Ok, em casa eu vejo. Chego em casa e deixo o livro na estante. Devo confessar, esse livro deve ter ficado ali umas três semanas me esperando, aguardando uma outra leitura que a priori chamou mais a atenção. Mas a hora dele chega. Vou ver do que se trata, mais pela citação do Sartre no início. Tem hospício no nome. Curioso... Deixe-me ver do que se trata. E pum!, caio numa das leituras que mais me fascinou nos últimos meses. O livro não é espírita! A citação do Sartre não é desencontrada. Hospício no nome é hospício mesmo, não se trata de figura de linguagem.
Caríssimos, Hospício é deus é coisa de maluco. Mas de maluco com conteúdo e muito a dizer. A autora é Maura Lopes Cançado, escritora mineira radicada no Rio, colunista do antigo Jornal do Brasil, escritora talentosa e excêntrica que, acometida por distúrbios mentais, em uma de suas estadias num manicômio público do Rio, resolve, por sugestão de um colega da redação do JB, escrever um diário. A moça, ela era jovem, talentosíssima e lúcida, presenteada com uma Olivetti portátil, passa a narrar seus dias de interna numa instituição psiquiátrica. Isso no final da década de 50. A citação de Sartre tem tudo a ver com o contexto da época, período de ebulição do existencialismo do casal Sartre e Bevouir.
Mas, voltando ao livro, devo dizer, fiquei super impressionado, um pouco que me punindo por desconhecê -lo. Pesquisem no Google pra ver, Hospício é deus virou tema de pesquisas nas universidades, sobre a questão do escrever sobre si.
O livro é um diário. Em meio à narrativas de acontecimentos do dia, a autora recorre a digressões e conta episódios de infância, juventude, do casamento frustrado, do filho, da família, de suas saudades do pai falecido, de sua inadequação social, de sua sexualidade reprimida, de seu estranhamento do mundo. E Maura Lopes Cançado narra com sensibilidade todo o horror que observa e do qual é vítima ao mesmo tempo.
Os manicômios da década de 50 eram praticamente masmorras. As doentes eram punidas com quarto forte, as guardas corriqueiramente recorriam à violência física, o eletrochoque era coisa comum, as condições sanitárias eram precárias, a comida, intragável. Maura narra tudo com acidez cortante, criticando o sistema e a classe médica, com sarcasmo, debochando da cultura rasteira dos técnicos e médicos. Maura Lopes à época contava 24 anos, mas erudita, de uma inteligência fora do comum; jovem, muito bonita, atraente, despudorada, excêntrica. Em meio a surtos e crises depressivas, quebrava a monotonia rasgando as próprias roupas, entrando nua no escritório do diretor, pulando muros, dançando no telhado, pregando peças nas seguranças, elaborando e executando planos de fuga. Maura era o "terror" do complexo hospitalar. Uma figura. Personagem que colocaria no bolso o inusitado interno feito por Jack Nickolson em Um Estranho no Ninho, clássico do cinema que retrata cotidiano e desventuras de um pequeno hospício. Vejam, super recomendo esse livro. Tem coisas muito tristes, e a despeito da citação sartreana na primeira página, Maura Cançado estava muito mais inclinada para uma leitura nietzscheana da vida. Há niilismo de sobra, angústia; o livro alterna momentos divertidos ou de descrições afetuosas com quadros desesperadores de abandono e injustiça. Leiam esse livro. É um mergulho na condição humana, uma rica reflexão existencial. Depois tirem suas próprias conclusões.

 Resultado de imagem para Hospício é deus. imagens

Um comentário:

  1. Não acredito que você conseguiu esse livro assim.Rapaz, esse livro é raríssimo! já chegaram a pagar por ele 3.000,00. Um monte de gente procura e não acha, pesquise na estante virtual para ver. Super importante e super raro. Parabéns, nesse dia você ganhou na mega sena!

    ResponderExcluir