Há momentos em que o capitalismo, cansado de prometer futuro, resolve investir no passado. Não qualquer passado, mas aquele que nunca sai de moda, a guerra. Quando as taxas de lucro se comportam como alunos desmotivados e os mercados já não se impressionam com mais um aplicativo de entrega, alguém, em algum gabinete bem climatizado, lembra que a destruição continua sendo uma forma bastante eficiente de gerar demanda.
A guerra da Ucrânia é um caso assim. Oficialmente, trata-se de defesa da democracia, da soberania nacional, do direito internacional e de outras expressões que costumam ganhar força proporcional ao número de contratos militares assinados. Na prática, opera como um grande estímulo econômico em tempos de crise, uma espécie de política anticíclica armada até os dentes, onde o estado volta a gastar pesado, dessa vez não para construir escolas ou hospitais, infraestrutura produtiva e tal, mas para garantir que fábricas de armamentos trabalhem em três turnos e sem risco de encalhe de estoque.
Nada resolve mais rápido o problema da superprodução do que a certeza de que tudo será destruído em poucos meses. Um míssil lançado hoje já é a encomenda de outro amanhã. Um tanque queimado é um balanço saneado. A lógica é simples, quase elegante, se não fosse trágica. O capitalismo sempre teve dificuldade em lidar com seus próprios excessos e descobriu cedo que a guerra funciona como uma faxina radical, varre cidades, estradas, usinas, gente, e depois chama isso de oportunidade de reconstrução. Vide o terrível projeto lá do genro do laranjoso, o Jared Kushner, que quer fomentar o turismo de luxo na Palestina reconstruída, após esse último ciclo do genocídio perpetrado por Israel.
Há também o entusiasmo tecnológico por detrás. A Ucrânia, por exemplo, virou um laboratório a céu aberto, onde drones são testados como se fossem novos modelos de celular, só que com capacidade de matar. Inteligência artificial decide alvos, algoritmos calculam rotas de destruição, sistemas de vigilância cruzam dados em tempo real. O discurso é de inovação, eficiência e modernização, palavras que soam futuristas até lembrarmos que o objetivo final continua sendo o mesmo de sempre, eliminar o inimigo antes que ele te elimine
Esse avanço tecnológico não é um efeito colateral, é parte central do processo. A guerra acelera aquilo que em tempos de paz levaria décadas, porque não há comitê de ética que resista a uma emergência militar, certo? Depois, como bônus, parte dessas tecnologias escorre para o uso civil, embaladas como progresso, enquanto a origem violenta é convenientemente esquecida. O GPS, a internet, os satélites, todos nasceram assim, primeiro como ferramentas de controle e destruição, depois como utilidades cotidianas. O problema é que o preço desse progresso dificilmente entra na planilha.
Enquanto isso, os Estados Unidos e a Europa redescobrem virtudes industriais que haviam terceirizado para o mundo. Fala-se em reindustrialização, autonomia estratégica, segurança energética. O detalhe é que essa reindustrialização vem com uniforme camuflado e orçamento garantido pelo tesouro. Trata-se menos de um novo projeto de desenvolvimento e mais de uma reorganização seletiva da produção, altamente dependente do estado e concentrada em poucos setores e empresas. O trabalhador continua precarizado, o salário continua comprimido, mas agora com a satisfação simbólica de saber que contribui para a defesa do mundo livre.
A guerra também cumpre um papel pedagógico interno, altamente ideológico. Ela ensina a população a aceitar sacrifícios, cortes sociais, inflação e endividamento como se fossem provas de maturidade cívica. Questionar gastos militares passa a ser quase uma heresia. A crítica vira suspeita. A divergência, traição. Em tempos de guerra, reais ou prolongados artificialmente, o consenso se constrói com menos debate e mais medo. Nada como um inimigo externo para silenciar conflitos internos. A extrema direita é especialista nisso.
Mas, fiquemos no ponto de vista econômico: o estímulo é real, só que é frágil. Ele não resolve a crise estrutural do capitalismo, apenas a adia e a desloca. A dívida pública cresce, os preços da energia e dos alimentos sobem, as cadeias globais ficam mais instáveis. O crescimento gerado é desigual e concentrado, enquanto a conta, socializada. É um estímulo que se alimenta da própria destruição e que, por isso mesmo, precisa de conflitos contínuos para se manter.
Profundamente irônico isso tudo. O sistema que se apresenta como racional, eficiente e moderno, só consegue se revitalizar recorrendo à forma mais primitiva de organização social, a guerra. Em vez de planejar a produção para atender necessidades humanas, planeja-se a destruição para manter a máquina girando. Em vez de expandir direitos, expande-se o raio de alcance dos mísseis. Em vez de imaginar futuros, reciclam-se tragédias.
A guerra da Ucrânia, nesse sentido, não é uma anomalia, é um sintoma. Ela revela os limites de um capitalismo que não consegue se reproduzir sem recorrer à violência organizada em larga escala. O estímulo econômico que da guerra decorre é real, mensurável, celebrado em relatórios e gráficos, mas carrega consigo uma instabilidade permanente. É crescimento sob ameaça, inovação sob ruínas, desenvolvimento que anda de mãos dadas com a possibilidade de colapso e o risco nuclear. Desenvolvimento a preço de dor e morte, sofrimento humano, na maioria das vezes a preço de crime de lesa-humanidade.
Talvez por isso o discurso oficial insista tanto na normalidade. Fala-se em defesa, em segurança, em estabilidade, como se fosse possível estabilizar um sistema que precisa periodicamente destruir para continuar existindo. Eles precisam estabilizar o furor das massas, isso sim. No fundo, a guerra funciona como um lembrete de que, quando o capitalismo entra em crise profunda, ele não inventa um novo mundo, apenas reaprende a fazer o mais do mesmo, guerra, com tecnologia melhor, marketing mais sofisticado e a mesma velha promessa de que, depois da destruição, tudo ficará melhor.
Fica a dúvida, não sobre se a guerra estimula a economia, isso ela faz, mas sobre que tipo de economia precisa da guerra para respirar. E, sobretudo, sobre quanto tempo ainda se consegue chamar isso de desenvolvimento sem que a palavra perca de vez o sentido.
Outra coisa: a bola da vez pode ser a Venezuela. Aqui do lado...


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